(HATHA) YOGA COMO CAMINHO DE AUTOTRANSFORMAÇÃO
Há milhares de anos, a prática do (hatha) yoga tem sido usada como uma ferramenta para abrir a mente e o corpo, provocando transformações. Essencialmente, a prática do yoga é um processo que envolve confrontar os próprios limites e transcendê-los. É uma abordagem psicofísica da vida e do processo de autoconhecimento que pode ser adaptada com criatividade para atender às necessidades de todos os momentos.
A prática do (hatha) yoga transforma as pessoas através da abertura das amarras físicas e mentais que bloqueiam seus potenciais, limitando suas vidas. Leia-se transformação enquanto processo que traz mudanças benéficas. Assim mesmo, é possível que alguém tenha medo que uma mudança profunda o afaste de seus entes queridos ou o faça perder contato consigo mesmo. No entanto, a transformação pelo yoga deverá aproximá-lo de si mesmo e torná-lo apto a amar terceiros com maior profundidade. É um processo de aprimoração que liberta a verdadeira essência do praticante - como no caso de um escultor que, através da sua arte, "liberta" uma escultura do pedaço de pedra em que estava escondida.
A prática do (hatha) yoga pode trazer vários benefícios palpáveis: é uma poderosa ferramenta para a correção de problemas físicos e psicológicos, retarda o envelhecimento do corpo e da libido sexual, aumenta a força muscular e a flexibilidade, inclusive beneficiando outras atividades físicas, aprimora a aparência física, a postura e a vitalidade e, acima de tudo, pode dar à vida uma sensação generalizada de bem estar.
Em seu nível mais profundo, a prática do (hatha) yoga pode produzir energia. Muitas vezes, essa energia é uma força misteriosa, fora de controle, cuja presença independe da nossa vontade. Porém, com a prática, o nosso corpo, que é um verdadeiro "transformador" energético, pode aprender a alterar a qualidade da energia produzida, assim como aumentá-la. Todos nós já tivemos contato com energias de diversos tipos. Às vezes, nos sentimos bastante energizados, só que com uma energia agitada, sem foco, querendo se libertar, toda de uma só vez. Há também momentos em que nos sentimos igualmente energizados, só que de forma mais calma e focada. O (hatha) yoga nos ensina não só a produzir energia mas também a focá-la e direcioná-la às diferentes partes do corpo. Isso nos permite superar obstáculos físicos e psicológicos, o que aumenta ainda mais a nossa energia e, consequentemente, o interesse que temos por nossas próprias vidas. A verdade é que a qualidade da nossa vida está diretamente ligada ao interesse que desenvolvemos por ela.
O (hatha) yoga é muito mais do que ter ou não ter flexibilidade corporal. Ser capaz de fazer posturas difíceis não significa que você sabe praticar yoga. De fato, a essência do yoga não está na superação de limites, mas sim na consciência com a qual esses limites são trabalhados. O importante não é a postura em si, mas como se chega a ela. Este processo, por sua vez, revelará quão bem nós compreendemos a prática do yoga. As pessoas conduzem a sua prática com mentalidades diferentes. Algumas consideram a postura como um objetivo a ser atingido; ou seja, o que vale é conseguir fazer a postura. Outras fazem da postura uma ferramenta de investigação do corpo. Neste caso, ao invés de usarem o corpo para "abrir" uma postura, usam a postura para "abrir" o corpo. Seja qual for a mentalidade, o fato é que ela influencia, e muito, a maneira como as pessoas conduzem a sua prática.
Quem considera a postura como um objetivo final, acaba tornando-se menos sensível aos sinais emitidos pelo corpo. De fato, quando a mente está focada numa postura ideal, e não na real, pode-se experimentar frustrações, provocando tensões e dificultando os movimentos. O esforço físico, neste caso, corre o risco de se tornar intenso ou rápido demais, ao invés de permitir ao corpo que se "abra" naturalmente, num ritmo próprio. Por outro lado, quando o esforço está focado no processo, e não na postura, a abertura do corpo aparece naturalmente. Enfim, é possível fazer posturas apenas com esforço, mas, no longo prazo, o esforço, por si só, limita a abertura do corpo e acaba inibindo um maior desenvolvimento na prática.
Nós estamos condicionados a valorizar o progresso, é natural que seja assim. O problema aparece quando fazemos a nossa prática depender de resultados, ao invés de considerá-la um processo diário de abertura e geração de energia. Essa dependência pode tornar-se um verdadeiro obstáculo à nossa prática. Vocês já devem ter percebido que o entusiasmo com que praticamos é cíclico, no sentido de que em certos dias é maior, outras vezes é menor. Uma das razões para isso tem a ver com o nosso apego a resultados. À medida que progredimos, nós ficamos animados e assim continuamos enquanto houver progresso. No entanto, mais cedo ou mais tarde o progresso vai estacionar. Neste caso, se o principal objetivo da nossa prática for o progresso, a falta dele poderá nos fazer perder interesse. A nossa prática vai diminuir, ou acabar, até que o nosso corpo comece a reclamar. Então, nós voltaremos a praticar, para nos sentir melhor, e novamente progrediremos - até o momento de estacionar novamente.
A postura mental com a qual se pratica (hatha) yoga é de fundamental importância. A maioria dos limites que se impõem na nossa prática diária tem origem mental, e não corporal. As pessoas acreditam que os seus bloqueios físicos são puramente físicos. No entanto, na minha opinião, quando o corpo se cansa, a mente se cansa antes dele, perdendo a concentração. E quando a mente se cansa, e perdemos a concentração, também diminui a nossa sensibilidade para perceber os sinais que o nosso corpo está emitindo. Assim, acabamos tratando o corpo com menos cuidado, o que por sua vez o deixa ainda mais cansado.
A prática do (hatha) yoga pressupõe um equilíbrio entre controlar e se deixar controlar - entre esforço e relaxamento, energia canalizada e energia liberada. Eu já encontrei dois tipos de personalidades no yoga. Eu as chamo de "aguerridas" e "sensuais". As "aguerridas" estão mais interessadas em controlar e progredir; já as "sensuais" estão mais interessadas em se deixar controlar e relaxar. Como yoga realmente significa equilíbrio, quem tem personalidade "aguerrida" precisa aprender a se deixar controlar, relaxar e a desfrutar da sensualidade dos alongamentos. E quem tem predisposição ao relaxamento precisa aprender a usar um maior controle para gerar energia, até mesmo se dando conta de que o esforço em busca dos limites do corpo também pode ser estimulante.
A arte do (hatha) yoga está em aprendermos a gerar e focar energia nas diferentes partes do corpo, a "ouvir" o que o corpo está dizendo e a nos deixar ir para onde a energia do corpo quiser nos levar. É evidente que os limites do corpo precisam ser percebidos e respeitados. Buscar o ilimitado, ignorando a dor, já é, em si, uma grande limitação - é não saber aceitar o que se é e como se está no momento presente. Ao invés de ignorar nossos limites, se nós prestarmos atenção neles, canalizando a nossa atenção para onde se encontram, então eles se desfarão naturalmente, por conta própria, e com um mínimo de resistência. De fato, tentar superar limites ignorando-os cria tensão e resistência; por outro lado, se escutarmos o nosso corpo, ele nos avisará quando estivermos prontos para progredir.
Para mim, um outro aspecto importante da prática do (hatha) yoga é a compreensão da questão do condicionamento. Assim como a prática busca um equilíbrio entre controlar e se deixar controlar, precisa haver um equilíbrio entre transformação e resistência (manutenção). Quem tem contato com o yoga não permanece inerte: ou a pessoa "endurece", cristalizando o que já é, ou então supera os seus condicionamentos e se transforma. Aliás, o processo de condicionamento se caracteriza por hábitos físicos e mentais acumulados ao longo do tempo. E esses hábitos nos definem - o modo como nos movimentamos, o que pensamos e até como pensamos. À medida que envelhecemos, esses hábitos tendem a nos tornar cada vez mais rígidos, física e mentalmente. Com isso, todo o nosso ser passa a funcionar com menos eficiência, inclusive no que diz respeito aos movimentos do corpo.
Nem por isso o condicionamento é um vilão do qual precisamos nos livrar, até porque ele desempenha um papel importante em nossas vidas e até mesmo no funcionamento do universo. O condicionamento, através dos seus hábitos, faz parte de um processo universal de individualização. Indivíduos, como nós, precisam de mecanismos de auto-proteção, estabelecendo limites. Um deles envolve a criação de hábitos que muitas vezes passam despercebidos. Alguns hábitos são necessários. Outros tornam-se perigosos, na medida em que passam a dirigir as nossas vidas sem que nos damos conta disso. Ademais, hábitos tendem a nos fazer funcionar em "automático", como máquinas, e assim perdemos a oportunidade de viver o momento presente. Ou seja, quando os nossos hábitos estão arraigados no inconsciente, nós nos esquecemos de viver o presente - e o presente é o único tempo que realmente existe.
A vida nos condiciona, deixando marcas e impressões. De fato, a nossa memória está gravada nas células do nosso corpo, no cérebro e em nossos pensamentos. A ironia é que, da mesma forma como as nossas experiências de vida podem ser úteis, elas também podem nos limitar. Por um lado, elas expandem os nossos horizontes, que é o ponto de partida para qualquer transformação. Por outro, elas criam hábitos físicos e mentais que acabam nos limitando. Por exemplo, se sofrermos uma distensão muscular praticando yoga, esta experiência nos ensinará que o desrespeito aos limites do corpo decorre de uma falta de atenção ou da pressa em obter resultados. Porém a mesma experiência poderá criar hábitos indesejáveis em nossa prática. Conscientemente ou não, evitaremos a região do músculo machucado, ou então a "visitaremos" com tamanho medo, que o músculo se tensionará ainda mais. Se estse comportamento persistir, o músculo criará o hábito de se fechar, antecipadamente, para se proteger de qualquer dor.
O fato é que há hábitos no (hatha) yoga, assim como em tudo o que fazemos repetidamente - o importante é estar consciente deles. Fazer posturas mecanicamente faz da prática do yoga uma modalidade de calistenia (ginástica rítmica), que acaba por diluir a aventura e a paixão que são parte do processo de transformação. Aliás, uma aversão à verdadeira prática do (hatha) yoga pode ser um sinal de que a nossa prática se tornou diluída e cheia de hábitos.
É importante perceber e entender as mensagens que o nosso corpo nos manda. Essa sensibilidade é crucial não só para evitar contusões e se recuperar delas, mas para se ter um maior controle do processo ióguico como um todo. Por exemplo, é o nosso corpo que vai nos dizer se está na hora de nos aprofundarmos numa postura ou se é melhor esperar.
ASPECTOS FÍSICOS
Antes de expressar as minhas opiniões sobre o lado físico do (hatha) yoga, eu gostaria de descrever como a prática afeta o nosso bem estar. Crianças têm flexibilidade, os seus corpos se movem com facilidade. À medida em que envelhecemos, nós nos tornamos mais rígidos e esta rigidez envolve os nervos, as glândulas, o sistema circulatório, a medula e os sistemas energéticos. O corpo se torna menos eficiente e a sua energia diminui à medida em que os sistemas ficam mais lentos ou bloqueados. A sensibilidade do corpo também diminui. E posto que movimento é uma questão fundamental para a vida, verifica-se também uma perda de qualidade de vida.
A palavra doença significa barreira. E à medida em que o corpo encontra barreiras dentro de si, ele começa a funcionar mal. A prática do (hatha) yoga mantém os canais do corpo livres e energizados, de modo a evitar defeitos e doenças. O (hatha) yoga também tem potencial curativo, através das posturas, que são ferramentas bastante sofisticadas. Elas nos permitem chegar a partes específicas do corpo, aumentando a sua força e saúde. De fato, a prática do (hatha) yoga nos permite cuidar da nossa saúde com maior independência.
Muitas pessoas só se preocupam com a própria saúde quando ela desaparece. Essas pessoas não têm o interesse ou a sensibilidade para sentir o corpo, até o dia em que ele se quebra e é tarde demais. A prática do (hatha) yoga nos ensina a perceber quando o nosso reservatório de energia diminui, e o que devemos fazer para recompô-lo. A capacidade que o (hatha) yoga tem de prevenir doenças é auxiliada pela sensibilidade que o nosso corpo desenvolve juntamente com a nossa consciência das sensações, o que nos permite detectar problemas antecipadamente. Através da prática do (hatha) yoga, podemos nos curar de doenças antes mesmo delas se manifestarem.
A prática (hatha) do yoga já foi chamada de "fonte da juventude" porque traz saúde e vitalidade, mas a denominação é incorreta. A busca por uma fonte de juventude - seja ela através de mágica, drogas ou técnica - pressupõe uma aversão ao processo de envelhecimento. A velhice é inevitável. O (hatha) yoga nos ensina a vivenciar o envelhecimento conscientemente. Pelo processo de transformação, ele é capaz de trazer crescimento e maturidade. Aversão à velhice significa rejeitar transformação e desenvolvimento. Paradoxalmente, a aversão à velhice, que pressupõe um apego a modos antigos e ultrapassados de viver, exacerba o próprio processo de envelhecimento que se quer evitar.
Com o (hatha) yoga, nós aprendemos a confrontar o processo de vida e morte que se expressa através do envelhecimento. A juventude é um período de inocência em que o corpo mantém e até mesmo aumenta o seu reservatório de energia. Quando se chega aos trinta ou quarenta anos, esse processo se reverte e o corpo começa a perder energia gradualmente. No entanto, é possível envelhecer aumentando a intensidade e a eficiência da energia que se tem. Só que isso não acontece espontaneamente. É preciso que nós lidemos com o envelhecimento do nosso corpo de forma consciente. A prática do (hatha) yoga não só contra-balança o processo de deterioração física, mas favorece um envelhecimento com desenvolvimento, maturidade, elegância e substância.
A prática do (hatha) yoga pela manhã nos coloca em contato direto com a maneira como nos tratamos no dia anterior. Nós aprendemos a perceber diferenças sutís em nossa flexibilidade, resistência e energia. O corpo tem uma inteligência própria e a nossa capacidade de perceber e aprender com esta inteligência é uma parte essencial da prática do yoga. Com atenção, o (hatha) yoga pode nos ajudar a alinhar e a remodelar a estrutura do nosso corpo de acordo com aquilo que ele mesmo está pedindo.
TÉCNICA DO (HATHA) YOGA
O (hatha) yoga, como arte e conhecimento do corpo, requer aprendizado e aprimoração técnica. O professor ajuda o aluno a expandir o seu repertório de técnicas, potencializando a sua capacidade de se expressar criativamente na prática. A técnica nos permite trabalhar o corpo de forma mais profunda, além de desenvolver foco e atenção. No entanto, é importante lembrar que a técnica, por mais bela que seja, é apenas um meio de transformação e não um objetivo em si.
ATENÇÃO E FOCO
A essência do yoga é foco e atenção - atenção à respiração, atenção aos sinais que o corpo emite e atenção à qualidade da própria atenção. Ao longo dos anos, fui descobrindo que a minha prática de (hatha) yoga se transforma continuamente. Praticar melhor não significa necessariamente conseguir fazer posturas mais avançadas, mas sim saber fazer bem as posturas possíveis. A precisão, quando unida à técnica, pode tornar a prática mais focada e divertida mesmo nas posturas mais simples - o que nos ajuda a compreender o verdadeiro significado do yoga.
Aprender a praticar o (hatha) yoga é, entre outras coisas, aprender a amar o que se faz - não necessariamente o tempo todo, mas como um elemento importante da nossa vida. Exemplo: nós podemos amar pessoas que, de tempos em tempos, nos frustram ou nos aborrecem - no entanto, o nosso amor continua. Caso você esteja praticando o (hatha) yoga há algum tempo, e ainda não tenha desenvolvido carinho por ela, este pode ser um sinal de que você ainda não aprendeu a praticar corretamente. Em algum momento, durante uma postura, você se vê interessado no que está fazendo? Se não estiver, provavelmente é porque a sua mente está longe, em outro lugar. Talvez você esteja fazendo a postura porque acha que é o certo ou porque é bom para você. Porém, se a sua atenção não está voltada para o corpo, você não está realmente focado na postura.
Na prática do (hatha) yoga, atenção pressupõe relaxamento e uma atitude de se deixar controlar pela postura. É preciso permanecer alerta e observar, mas não passivamente. É o nosso corpo quem vai decidir por quanto tempo devemos manter a postura e quando devemos sair dela.
Com a prática do (hatha) yoga, desenvolvemos a habilidade de focar energia em partes específicas do corpo, e a gerar energia tanto quando estamos fazendo uma postura como quando estamos relaxando. Aprender a focar energia com precisão é uma característica do (hatha) yoga que muitas vezes não é enfatizada. E que não depende de flexibilidade, mas sim de uma capacidade mental de identificar pontos de tensão e bloqueio no corpo, para neles focar a atenção.
Atenção, nesse caso, significa a consciência que se ganha quando a mente abre mão de querer controlar o corpo. Foco, por sua vez, é mais restrito do que atenção e envolve um certo controle mental. Embora atenção e foco sejam coisas diferentes, eles estão intimamente ligados. É através da atenção que se chega ao foco e o foco, por sua vez, mantém a atenção.
A RESPIRAÇÃO
A respiração (prana) é o combustível da vida. No (hatha) yoga, a respiração serve de ponte entre a mente e o corpo e pode se dar tanto conscientemente como inconscientemente.
A respiração é fundamental para a prática do (hatha) yoga. Aprender a usá-la corretamente é uma questão chave para nos aprofundarmos na prática, já que a respiração tem impacto direto sobre a melhora do nosso alongamento, força, resistência e equilíbrio. Eu pessoalmente uso uma variação da respiração "ujjayi", que se dá através do controle da glótis. O movimento de expiração pode nos ajudar tanto a chegar a uma postura como a relaxar. Para se chegar a posturas que envolvem contração ou compactação, deve-se usar a expiração, enquanto que alinhamentos ou relaxamentos devem ser feitos com a inspiração. Por outro lado, posturas que estendam o peito ou os pulmões devem ser feitas com inspiração, enquanto que o alinhamento ou relaxamento das mesmas devem ser feitos com expiração.
A respiração é um exercício muito interessante de controle e entrega (se deixar controlar). O corpo se entrega a uma postura com mais facilidade quando usa a respiração, ao invés da mente, para guiar e controlar os movimentos e o alongamento. Quando a respiração e o corpo estão coordenados, se movimentando juntos, a energia flui através dos músculos, mudando radicalmente a qualidade da prática. Uma respiração correta nos tira da mente e nos coloca no corpo, trazendo uma graça e sensualidade para os movimentos que nunca aparecem quando é a mente que está no controle. Bem utilizada, a respiração pode relaxar o corpo inteiro e permitir que canalizemos energia para partes específicas.
DESCOBRINDO OS LIMITES
Uma outra questão importante na prática do (hatha) yoga tem a ver com os nossos limites e como lidamos com eles. O corpo tem limites de alongamento, de força, resistência e equilíbrio. Usemos o limite de alongamento como exemplo. Em cada postura, há um limite máximo de flexibilidade. Esse limite traz consigo uma sensação de intensidade, mas não necessariamente de dor - haverá dor se ele for ultrapassado. E esse limite não é sempre o mesmo; ele varia, não só de um dia para o outro, mas de uma respiração para a outra. Portanto, ele pode progredir ou regredir. Parte do nosso aprendizado com o (hatha) yoga é saber se entregar à realidade do nosso limite, aceitando-o e nos adaptando a ele. Certamente, é mais agradável aceitar uma progressão do limite do que uma regressão. Porém é tão importante aprender a trabalhar com um limite mais curto, quando o corpo estiver mais fechado, quanto com um limite mais amplo, quando o corpo estiver mais aberto.
Ainda que sutilmente, podemos nos apegar aos avanços dos nossos limites. E ao desejar limites previamente alcançados, corremos o risco de perder contato com o corpo no momento presente, deixando de ouvi-lo e abandonando as posturas cedo demais. Portanto se a flexibilidade do corpo ontem foi boa, ótimo, mas não fique decepcionado se ela for menor hoje.
Toda postura do (hatha) yoga envolve o corpo inteiro, mesmo que o alongamento esteja mais evidente em certas partes. Quando chegamos ao limite de uma postura com muita rapidez, é possível que tenhamos, ao longo do processo, ignorado várias partes do corpo. Podemos até ter a impressão de que o alongamento é total, mas o alinhamento do corpo pode estar incompleto. Por isso é importante chegarmos ao limite de cada postura gradualmente, "abrindo" as partes do corpo uma por uma, possibilitando um bom alinhamento e um alongamento mais profundo.
Há um outro limite que, por ser menos óbvio, pode passar desapercebido. É o que eu chamo de limite primário. É o primeiro limite ao qual chegamos, quando iniciamos uma postura. Ao primeiro sinal de bloqueio ou dor, é importante que paremos por um momento, para nos acostumar com esse limite, re-alinhando a postura e prestando atenção na respiração para torná-la mais profunda. Com o passar do tempo, a intensidade da sensação de bloqueio vai diminuir e automaticamente o nosso corpo se aprofundará na postura até que um novo limite apareça. Evidentemente, esse processo é contínuo, até chegarmos no nosso limite final. Quando isso acontecer, todas as partes do corpo estarão "abertas" e com um mínimo de esforço. De modo geral, quanto mais cuidadosamente nós abordarmos os limites primários, mais longínquo nos parecerá o limite final. E para manter o "fôlego" do corpo, é preciso permanecer mais tempo nos limites primários, superando as dificuldades e intensidades gradualmente. Paralelamente, respeitar os estágios de uma postura, avançando de um limite para outro apenas depois que a respiração se acalmar, nos ajuda a manter o relaxamento durante todo o processo.
Lidando com os limites dessa forma, somos capazes de manter um melhor alinhamento do corpo e prestar mais atenção às mensagens que ele nos dá, o que por sua vez nos permite chegar a limites mais avançados sem sensação de dor e sem nos machucar. Estar consciente dos limites também aumenta a qualidade sensual de cada postura e faz da prática do (hatha) yoga uma experiência verdadeiramente artística.
DOR E INTENSIDADE
É fundamental que enxerguemos a diferença entre dor e intensidade. A princípio, a linha que as separa parece nebulosa, mas na verdade é bem definida pelo nosso estado mental. A dor é tanto física quanto psicológica porque envolve um julgamento de desconforto e aversão. Ou seja, quando se quer fugir de uma sensação, é porque se trata de uma sensação de dor. Já a intensidade, que não tem a mesma característica psicológica da dor, gera energia e uma sensualidade que pode até nos excitar.
Medo e ambição podem atrapalhar a diferenciação entre dor e intensidade. Quando temos medo de nos machucar, até mesmo as sensações leves podem ser interpretadas como dor e provocar aversão. Já a ambição pode nos fazer ignorar ou tolerar a dor. Quando se tem medo ao fazer uma postura, não é aconselhável ignorar esse medo, caso contrário pode haver contusões. É preferível desenvolver a postura até o limite em que o medo começa, mas sem ultrapassá-lo. Deve-se manter a postura, aprofundar a respiração e esperar o corpo relaxar e se "abrir" para então continuar. Para alunos que são muito ambiciosos e não tem medo, eu recomendo expressamente que eles permaneçam mais tempo no seu limite primário e que cheguem a cada limite posterior com calma. Isso desenvolverá uma maior sensibilidade de modo a não ignorar as mensagens do corpo.
A dor é uma sensação difícil de se reconhecer porque ela não é necessariamente aguda ou intensa. E só uma sensação de intensidade nem sempre significa dor. Mais uma vez, se a sensação é tal que nós queremos fugir dela, provavelmente é dor. O medo de sensações - mesmo daquelas com grau de intensidade relativamente baixo - é um limite que todos nós temos e que precisa ser respeitado. Porém, é possível perder este medo de forma gradual.
Durante uma postura, podemos encarar a dor de várias formas: podemos simplesmente aguentar a dor, pensar em outra coisa ou diminuir a duração da postura. É o desconforto que nos faz agir assim e, quando perdemos a concentração mental, a qualidade da nossa postura sofre, aumentando ainda mais a possibilidade de contusões como uma distensão muscular. De fato, as contusões na prática do (hatha) yoga se dão geralmente por ambição ou falta de atenção - ou então uma combinação das duas. A ambição pode nos levar a manter uma postura por tempo demais ou a querer reproduzir a postura de uma outra pessoa (ou a nossa própria postura do dia anterior) ou então a querer atingir estados psíquicos. A ambição é uma característica mental, portanto não pode ser eliminada simplesmente com voluntarismo. Aliás, a própria vontade é uma forma de ambição. O que se pode fazer é manter a concentração da mente nos limites do corpo, mudando o foco da ambição para as sensações que se está experimentando. O ideal é que uma postura não provoque nenhuma dor. A dor é um sinal do corpo, ao qual precisamos estar sensíveis para não nos machucar. Finalmente, a prática com uma presença constante de dor nos faz perder o interesse e acaba transformando o (hatha) yoga numa obrigação ao invés da alegria que poderia ser.
CANAIS DE ENERGIA
Além da respiração e dos limites, há uma terceira dimensão física relacionada à prática do (hatha) yoga. Esta dimensão tem a ver com a transmissão de energia para diferentes partes do corpo através da criação de canais de energia. Esses canais são correntes vibratórias que, durante uma postura, se movem em direções diferentes. Tentar descrever esse processo é difícil. Até mesmo o uso da palavra energia, quando se quer dizer ativação interna, pode parecer um pouco abstrato. No entanto, é possível perceber quando se está com mais ou menos energia no corpo. Se prestarmos atenção, notaremos que algumas partes do nosso corpo estão animadas, cheias de energia, enquanto outras parecem mortas ou bloqueadas. Nós perceberemos também que há correntes sutis percorrendo o corpo todo - até porque temos, de fato, um sistema hidráulico (o circulatório) e um sistema elétrico (o nervoso).
Quando se faz uma postura, o alongamento envolve primeiramente músculos e tendões. Porém, há um outro tipo de alongamento que eu chamo de alongamento dos nervos. Nesse caso, os músculos são utilizados para alongar os nervos, de modo a criar uma corrente energética que possa ser sentida e intensificada. A intensidade dessa corrente, que é controlada pelos músculos, provoca uma sensação de vibração que se estende de fora para dentro. Por exemplo, podemos criar um canal de energia quando mantemos o nosso braço paralelo ao chão e o alongamos para fora. Este alongamento provoca uma vibração que se desloca do ombro pelo braço até os dedos da mão. Toda postura tem uma rede própria de canais de energia que pode ser criada gradualmente, de modo a envolver o corpo todo.
Esses canais de energia afetam a nossa prática do (hatha) yoga de várias maneiras: (1) aumentando a energia durante a postura; (2) fortalecendo e relaxando os nervos; (3) diminuindo o risco de contusão causado por hiperextensão muscular; (4) aumentando a força e a duração da postura; e (5) alinhando o corpo internamente.
A preocupação com um bom alinhamento nas posturas é importante. No entanto, muitos alunos usam apenas métodos externos para promover esse alinhamento - a ajuda de uma outra pessoa que entenda de alinhamento e ajude a fazer os ajustes ou então um modelo que possa servir de exemplo. Às vezes, métodos externos podem ser úteis, mas é só quando o trabalho é feito internamente, pela inteligência do próprio corpo, que uma postura chega ao verdadeiro alinhamento.
ALAVANCAS
Há três tipos básicos de alavancas que auxiliam o movimento dos músculos: (1) alavancas externas, como o chão, a parede, e outros objetos; (2) alavancas corporais, como uma parte do corpo que auxilia o movimento de uma outra parte; e (3) alavancas internas, que se dão quando os músculos aprendem a se auto-alavancar sem ajuda externa.
Alavancas externas são as mais fáceis de usar e as internas as mais difíceis. Porém é importante aprender a usar as alavancas internas porque elas nos ensinam a provocar o movimento de dentro para fora, aumentando a sensibilidade que temos ao nosso próprio corpo e o controle que precisamos para nos aprofundar na prática. Quando se usa alavancas externas, o risco de contusão é maior porque a força é aplicada de fora para dentro do corpo. Já com alavancas internas, o risco é menor porque é difícil para o corpo ignorar os seus próprios limites quando a força aplicada vem de dentro. Ademais, todas as alavancas internas dependem dos canais energéticos para trabalharem apropriadamente - mas nem por isso todos os canais energéticos são alavancas. Aprender a utilizar essas alavancas nos permite experimentar uma nova dimensão da prática do (hatha) yoga.
COMPREENDENDO AS POSTURAS
Na minha opinião, mais importante do que conseguir fazer uma postura é compreender como ela funciona. Para tanto, é preciso combinar concentração, limite, alavanca, e canal energético, de modo que todos esses elementos se misturem, formando uma unidade. Compreender uma postura é mais do que simplesmente entendê-la intelectualmente. A verdadeira compreensão se dá quando os músculos e os nervos do nosso corpo, e até mesmo as células, "sabem" como realizar a postura.
Há diferentes maneiras de se praticar respiração, limite, canal energético, alavanca e alinhamento, quer seja individualmente ou ao mesmo tempo. Enquanto estamos no limite primário de uma postura, podemos focar nossa atenção numa respiração mais longa e profunda. Assim que a respiração se estabilizar, podemos mudar o foco para a criação de um canal energético. Tão logo o corpo se acostume com esse canal e esteja relaxado, podemos adicionar mais um canal energético - ou então substituir o primeiro pelo segundo. Outra possibilidade, mais avançada tecnicamente, é criar todos os canais energéticos de uma só vez e usar a respiração para controlar a intensidade deles. Canais energéticos provocam um relaxamento dinâmico nos músculos porque, enquanto os nervos criam a corrente energética, os músculos se rendem à postura e se deixam alongar mais profundamente. Compreendendo o funcionamento de uma postura e nos deixando levar para onde a energia do corpo indicar, notamos que uma postura oferece mais possibilidades e variações do que inicialmente pensávamos.
ASPECTOS PSICOLÓGICOS
RESISTÊNCIA
Transformação, mudança, crescimento, auto-realização - todos esses são ideais positivos almejados pela maioria dos praticantes do (hatha) yoga. E todos os que estão envolvidos em qualquer processo de crescimento precisam enfrentar resistências. Na prática do (hatha) yoga, encontramos resistência física em nosso corpo, resistência à prática e resistência à mudança de hábitos e estilos de vida que acabam por inibir o nosso crescimento. Como eu trabalho há muitos anos com o (hatha) yoga e outras atividades voltadas para o crescimento, eu gostaria de poder dizer que venci todas as minhas resistências, mas isto não é verdade. No entanto, descobri que a resistência em si não é necessariamente um problema. Nós podemos aprender a usá-la como um professor, porque a resistência nos ensina quais são os nossos hábitos e apegos. Ela também nos mostra onde estão os nossos bloqueios e aversões. Para tratar desse assunto, eu gostaria de abordar alguns aspectos psicológicos da prática do (hatha) yoga.
Todos nós sabemos que a mente e o corpo exercem influência um sobre o outro. De fato, tensões psicológicas "vivem" nos músculos: quando estamos tensos, nós acabamos tensionando os músculos e bloqueando energia. Depois de anos acumulando tensões, o corpo aprende a "fechar" partes físicas que exercem influência sobre estados emocionais. Por exemplo, um peito tenso dificulta a nossa capacidade de sentir emoções mais profundas. Se o peito se "abrir", a força das emoções que aflorarão poderá nos causar desconforto e, por isso, resistimos à abertura desta parte do corpo.
Muito do que nos limita na prática do (hatha) yoga não está no corpo e sim em atitudes e hábitos mentais. A resistência que encontramos ao executar uma postura está tanto no corpo como na mente. E a resistência mental pode tomar várias formas: preguiça, esquecimentos, desculpas e até mesmo doenças e contusões. Para vencermos a resistência física, é fundamental que vençamos também a resistência mental. E quanto mais nos aprofundamos no (hatha) yoga, mais é preciso entender a natureza da nossa mente.
Quase todos nós nos identificamos com as nossas mentes, chamando-as de "nós" e sem nos dar conta de que a mente é apenas um dos vários sistemas que compõem o ser humano. A importância da mente é enorme e o seu poder é tão grande que muitas vezes a mente ignora, subverte, ou atropela os outros sistemas que têm inteligência própria. Por exemplo, o nosso corpo nos avisa que não está com fome - e, no entanto, nós comemos. Ou o nosso corpo está cansado e não lhe damos descanso. Embora a prática do (hatha) yoga nos deixe mais sábios e sensíveis a nível físico, a mente precisa aprender a interpretar essa sabedoria. E essa interpretação está diretamente ligada à natureza e ao condicionamento da mente. Normalmente, nós não vemos a mente como algo estruturado e condicionado. No entanto, a mente funciona, sim, de acordo com certos princípios. E entender esses princípios nos abre para possibilidades inimagináveis, representando uma verdadeira porta para transformações.
Observar as nossas resistências pode revelar a natureza da nossa mente. Por que praticamos o (hatha) yoga? Até que ponto a nossa prática é movida pelo medo - de morrer, de envelhecer, de ficar sem energia? Até que ponto a nossa prática é movida pela ambição - por resultados, por estados de consciência mais elevados, por juventude e saúde? Evidentemente, todos nós temos medos e ambições que trazemos conosco para a prática do (hatha) yoga. O problema não é tê-los, mas sim perder o controle para eles mesmo que inconscientemente. Quando isso acontece, a mente se orienta para o passado ou para o futuro e perde contato com o momento presente - com a sensação dos músculos, com a energia que está sendo gerada, com todas aquelas mudanças sutis que precisam ser monitoradas. Tomar consciência de como os nossos medos e ambições limitam a nossa prática não nos livra deles automaticamente. Porém, essa consciência nos auxilia a colocá-los de lado durante a prática, de modo que trabalhemos menos mecanicamente e com mais atenção.
HÁBITOS
Você já se perguntou porque continua fazendo coisas que sabe que não são boas para você? Não me refiro à pergunta "como é que eu paro com isso?", mas sim "por que é que faço isso?". Uma outra maneira de formular essa pergunta é "o que está por trás dessa contradição?". Embora digamos que gostaríamos de ter mais energia, guardamos a que já temos sob rígidos e controlados limites. O fato é que se o nosso nível de energia baixar muito, nosso corpo pode morrer. Portanto, precisamos de um nível mínimo para mantê-lo funcionando. Por outro lado, se o nível de energia aumentar muito, ele pode nos forçar a mudar hábitos relacionados às nossas sensações de prazer e segurança. Por exemplo, é difícil assistir à televisão quando se está com um nível de energia muito alto; a tendência é ficar inquieto. No entanto, quem tem um apego muito forte à TV, pode comer em demasia para diminuir o seu nível de energia. Inconscientemente, a pessoa desenvolve um hábito prejudicial para controlar o seu nível de energia e poder assistir à TV que lhe dá muito prazer. A prática do (hatha) yoga aumenta o nível de energia de uma maneira construtiva, questionando hábitos mentais e físicos que, por sua vez, resistem a qualquer mudança.
Os nossos condicionamentos e maus hábitos se explicam pelo apego que temos à gratificação imediata. Por exemplo, o sabor dos alimentos pode nos dar um prazer imediato, mas, se nos deixarmos condicionar por ele, nós nos esqueceremos de que os alimentos também precisam ser fontes de energia e nutrição. Quando não conseguimos resistir às tentações, é porque desenvolvemos algum tipo de vício físico ou psicológico com aspectos mecânicos que nos fazem funcionar no "piloto automático". E é muito difícil resistir ao vício, mesmo quando sabemos que ele vai nos prejudicar mais tarde causando dor. As resistências que sentimos na prática do (hatha) yoga se explicam, em parte, pelos nossos apegos e vícios. A prática pode, no entanto, nos livrar desses apegos de forma consciente.
Quando reconhecemos a importância da mente na prática do (hatha) yoga, é fácil de entender porque explorá-la é fundamental. Da mesma forma como condicionamentos físicos restringem os movimentos do corpo, hábitos mentais também nos limitam. Uma mente bitolada é mais do que simplesmente uma mente apegada a um sistema de crenças e valores. Ela é capaz de restringir a capacidade de percepção do indivíduo e consequentemente a sua empatia e sensibilidade emocional. Uma mente rígida limita a atividade mental e a percepção das possibilidades que a vida oferece. Os nossos valores, crenças e ideias determinam o que pensamos e consequentemente o que fazemos. Em termos físicos, a prática do (hatha) yoga abre e transforma o corpo confrontando os limites, bloqueios, e condicionamentos. Da mesma forma, à medida que conhecemos a nossa mente (como funciona, onde estão os seus limites psicológicos), nossa mente se abre e a nossa consciência se expande.
Até que ponto lembranças, expectativas, e gratificação imediata afetam a sua prática de hatha yoga? Que pensamentos vêm à sua mente durante a prática? Você dá preferência para certas posturas, evitando outras? Você faz as posturas de que não gosta com maior rapidez para se livrar delas? A sua mente vagueia? Você pensa sobre a postura seguinte, quanto tempo ainda falta para terminar uma postura ou sobre o que vai fazer depois da prática? Este tipo de perguntas pode vir à tona durante a prática de (hatha) yoga. Evidentemente, elas têm grande influência sobre a qualidade da prática, das posturas e da energia gerada.
Quem pratica (hatha) yoga geralmente diz que quer crescer. Na verdade, o que desejamos é manter seguras todas as características pessoais e aspectos da nossa vida que nos são agradáveis, e nos livrar daqueles que nos incomodam. O verdadeiro crescimento nos afasta não só das características desagradáveis, mas também dos hábitos e prazeres aos quais somos apegados. Não há como saber exatamente para onde o crescimento vai nos levar ou quão diferentes nos tornaremos. De fato, o crescimento tem aspectos de imprevisibilidade e pode afetar não só os nossos hábitos, mas até mesmo os apegos e aversões que estão por detrás deles.
Muitas pessoas querem saber se, para praticar o (hatha) yoga, elas serão obrigadas a parar de beber vinho e comer carne vermelha. É importante entender que o medo de abrir mão de certos prazeres pode nos deixar ainda mais apegados a eles, comprometendo a prática do (hatha) yoga e o nosso crescimento. Há tantos hábitos e prazeres que definem as nossas vidas e as nossas personalidades. E as nossas resistências não deixam de ser uma forma de auto-proteção contra mudanças. Alguns hábitos e prazeres se justificam somente em certos períodos da vida. Há os que podem ser adaptados e ainda outros que podem continuar fazendo parte das nossas vidas até a morte. E não há formulas para nos dizer se o que estamos fazendo é saudável. Aliás, um dos melhores resultados da prática do (hatha) yoga é a sensibilidade que desenvolvemos e que nos ajuda a descobrir o que é mais apropriado para nós.
Com a prática do (hatha) yoga, hábitos e modos de vida podem desaparecer ou se transformar naturalmente. Isso não quer dizer que não haverá resistência à perda de velhos prazeres ou que não será preciso usar a inteligência para se livrar de hábitos que não são mais apropriados. A energia gerada pelo (hatha) yoga, e a consciência nele embutida, deixa claro o que é e o que não é mais adequado para o nosso bem estar. A prática do dia-a-dia nos dá recados que são difíceis de ignorar.
Todos nós precisamos observar a fronteira que existe entre o crescimento, que é uma aventura, e a resistência ao crescimento, que dá segurança. Uma certa dose de segurança é necessária como ponto de partida para o crescimento, mas segurança demais atrapalha o crescimento e diminui as possibilidades que a vida nos oferece. Umas das principais qualidades do (hatha) yoga é a sua capacidade de gerar uma energia que nos deixa mais abertos, ao mesmo tempo que nos ajuda a desenvolver força física e psicológica para assimilarmos as mudanças em nossas vidas. Assim, chegamos a uma sensação de segurança sem resistência - a segurança de saber que estamos prontos para encarar qualquer desafio que a vida colocar diante de nós.
COMPETIÇÃO E COMPARAÇÃO
O ato de pensar pode ser um processo muito mecânico e repetitivo. Em certos casos, os pensamentos são tão repetitivos que eu os chamo de "fitas mentais". E elas se dão a vários propósitos. Por exemplo, algumas fitas mentais diminuem a nossa tensão, outras transformam a raiva em dor ou a dor em raiva. Muitas dessas fitas também fazem comparações e julgamentos. O fato é que nós usamos a mente para controlar as nossas sensações e, mesmo que esse controle nos dê um alívio imediato, a longo prazo ele nos causa sérios problemas. Por exemplo, quando sentimos inveja de alguém, mas rejeitamos esse sentimento por considerá-lo ruim, é possível que queiramos suprimi-lo através do pensamento. Neste caso, tentaremos nos convencer conscientemente de que o sentimento é ruim ou tentaremos escondê-lo no nosso inconsciente ou então faremos de conta que o sentimento nunca esteve lá. Seja como for, é dessa forma que geramos tensões dentro de nós.
O (hatha) yoga é considerado uma prática não competitiva. Isso é verdade, mas não significa que ela sempre esteja livre do sentimento de competitividade. À medida em que nos aprofundamos na prática, a nossa competitividade precisa ser monitorada - caso contrário, ela pode tomar conta de nós inconscientemente. Sem este monitoramento, nós corremos o risco de nos esforçar demais atrás de realizações, sujeitando-nos a contusões, ou então tentar suprimir a competitividade, o que nos deprivaria de um aprendizado que só acontece quando é possível fazer comparações. De fato, quando rejeitamos a nossa própria competitividade, temos mais dificuldade de enxergá-la dentro de nós. Isso atrapalha o nosso crescimento, deixando-nos mais fechados e tensos.
Uma análise mais profunda do assunto revela que a raiz da competitividade é a comparação - que, por sua vez, é um processo mental natural. O próprio conceito de progresso pressupõe uma comparação. Pode-se dizer que é possível ser competitivo consigo mesmo, sem fazer comparações com outras pessoas. Porém, esta é uma meia-verdade porque padrões de excelência e progresso não existem num vácuo e sim num contexto determinado inclusive pelo que já foi feito por terceiros.
A capacidade da mente de fazer comparações é uma ferramente útil e necessária, posto que nos dá referências. A prática diária do (hatha) yoga é uma forma direta de sintonizar-nos com o que fizemos no dia anterior assim como com o que pretendemos fazer no futuro. Nós e a nossa prática do (hatha) yoga somos afetados por emoções, conflitos, estresse e relacionamentos. Esses e outros elementos da vida são referências úteis na medida que enxergamos como estão interligados. E, para enxergar isso, é preciso saber comparar.
Buscar o progresso tem necessariamente um elemento de competitividade - é querer ser tão bom ou melhor do que se foi no dia anterior ou no ano passado. E se comparar com terceiros, querendo ou não, é inevitável. A comparação e a competitividade que emana dela não podem ser eliminadas simplesmente com esforço. Tentar ser não-competitivo é na verdade competir consigo mesmo, ou com outros, em busca da não-competitividade. E quando pensamos que estamos sendo bem sucedidos (e a mente pode nos convencer de qualquer coisa), isto pode nos fazer sentir superiores, o que é uma forma de competitividade. O estado mental meditativo, que é essencial para a prática do (hatha) yoga, transcende a competitividade não pela luta, mas colocando-a em seu devido lugar como a fonte de referência que é - e, ao mesmo tempo, reconhecendo seus limites e perigos.
A comparação é uma parte integral do processo de crescimento e transformação; no entanto, é fácil começar a fazer comparações com outros ou com si próprio a respeito de quanto ou quão rapidamente estamos nos transformando. Dessa forma, até mesmo o conceito de transformação pode acabar virando mais um objetivo a ser atingido. Transformação é um processo sem fim que precisa ser vivenciado e que não pode ser capturado ou possuído.
EVOLUÇÃO
Fundamentalmente, a prática do (hatha) yoga implica olhar para dentro de si e responder à pergunta, "quem sou eu?". À medida que nós mergulhamos nas profundezas do nosso ser, o conhecimento que adquirimos não diz respeito somente a nós, mas também à nossa existência num contexto de vida mais amplo. Quando as partes do todo se abrem quebrando as barreiras da separação, a comunicação - que é comunhão - passa a ser possível.
O movimento está no núcleo da energia, dos relacionamentos, do crescimento - está no núcleo da vida. Evolução é a forma como o movimento se expressa por todo o universo. Evolução pode ser considerada um movimento em direção a uma maior complexidade e capacidade de adaptação. Na verdade, esta é apenas a camada externa da evolução que torna possível o mais básico dos movimentos: a evolução da consciência. A maturidade e a evolução se dão quando a nossa consciência se alarga, tornando-se mais inclusiva.
A prática do (hatha) yoga promove abertura e movimento nos recantos mais profundos do nosso ser, expandindo a nossa consciência, e aumentando a nossa capacidade de comunicação. Esta autotransformação nos permite desenvolver um relacionamento mais profundo com a vida e nos torna mais conscientes e participativos do processo de evolução.
*Fonte: http://www.simplesmenteyoga.com.br/conteudo.php?id=40
*Joel Kramer é autor do livro "The Passionate Mind" e foi Mestre-de-Yoga do Instituto Esalem entre 1968 e 1970. Joel mora em Bolinas (Califórnia), ministra palestras e cursos nos Estados Unidos e na Europa e compartilha o yoga através de uma prática que combina conhecimentos orientais e ocidentais e ensina o aluno a experimentar e a compreender as posturas do (hatha) yoga "de dentro para fora" - usando técnicas como respiração, sensibilidade, consciência de limites físicos e mentais, alavancas e canais energéticos internos. Joel acredita que o praticante naturalmente expandirá a sua consciência através do autoconhecimento ao olhar para dentro de si.



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