Um pouco de Manoel de Barros



Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916) é um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas européias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Recebeu vários prêmios literários, entre eles, dois Prêmios Jabutis. É o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade nos meios literários. Enquanto ainda escrevia, Carlos Drummond de Andrade recusou o epíteto de maior poeta vivo do Brasil em favor de Manoel de Barros . Sua obra mais conhecida é o "Livro sobre Nada" de 1996. (Fonte: Wikipedia)

Poemas:



Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.
Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.


Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.


Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas



Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas.
E me encantei.



O maior apetite do homem é desejar ser.
Se os olhos vêem com amor o que não é, tem ser.



Sou livre para o silêncio das formas e das cores.



Natureza é uma força que inunda como os desertos.



Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro,
envergá-las pro chão, corrompê-las, -
até que padeçam de mim e me sujem de branco.



Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.



As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.



Tentei descobrir na alma alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundas.
Consegui não descobrir.



No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal :
Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro.



Um fim de mar colore os horizontes.



...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.



Eu via a natureza como quem a veste. Eu me fechava com espumas.



A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.



Afundo um pouco o rio com meus sapatos.
Desperto um som de raízes com isso
A altura do som é quase azul.



Eu precisava de ficar pregado nas coisas vegetalmente e achar o que não procurava.



Poesia é voar fora da asa.



Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de beleza for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer.



Sou hoje um caçador de achadouros da infância.
Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.
O mundo não foi feito em alfabeto.
Senão que primeiro
em água e luz.
Depois árvore.



A voz de uma passarinho me recita.



Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.


Gosto de viajar por palavras do que de trem.
  •    
Há um comportamento de eternidade nos caramujos.



Aqui de cima do telhado a lua prateava



Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.



Só quem está em estado de palavra pode
enxergar as coisas sem feitio.



A tarde está verde no olho das garças.



Deixei uma ave me amanhecer.



E agora o que fazer com essa manhã desabrochada a pássaros?



Poetas e tontos são feitos com palavras



Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo.



Sou fuga para flauta de pedra doce.
A poesia me desbrava.
Com águas me alinhavo”



Sol, s.m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar”



“Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser árvore.”



Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.



Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.



A inércia é o meu ato principal.
  •    
O rio que fazia uma volta
atrás da nossa casa
era a imagem de um vidro mole...


Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz...
se chama enseada...


Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.



Meu fado é de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.



"No osso da fala dos loucos têm lírios."



Experimentando a manhã dos galos



... poesias, a poesia é


- é como a boca
dos ventos
na harpa


nuvem
a comer na árvore
vazia que
desfolha a noite


raíz entrando
em orvalhos...


floresta que oculta
quem aparece
como quem fala
desaparece na boca


cigarra que estoura o
crepúsculo
que a contém


o beijo dos rios
aberto nos campos
espalmando em álacres
os pássaros


- e é livre
como um rumo
nem desconfiado...
  •    
“(…) E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.”
  •    
Liberdade busca jeito. Sou água que corre entre pedras. Quem anda no trilho é trem de ferro



Onde eu não estou, as palavras me acham.



Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina


        
        
Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.
Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.





A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.


Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.


Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas



Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas.
E me encantei.



O maior apetite do homem é desejar ser.
Se os olhos vêem com amor o que não é, tem ser.



Sou livre para o silêncio das formas e das cores.



Natureza é uma força que inunda como os desertos.



Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro,
envergá-las pro chão, corrompê-las, -
até que padeçam de mim e me sujem de branco.



Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.



As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.



Tentei descobrir na alma alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundas.
Consegui não descobrir.



No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal :
Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro.



Um fim de mar colore os horizontes.



...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.



Eu via a natureza como quem a veste. Eu me fechava com espumas.



A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.



Afundo um pouco o rio com meus sapatos.
Desperto um som de raízes com isso
A altura do som é quase azul.



Eu precisava de ficar pregado nas coisas vegetalmente e achar o que não procurava.



Poesia é voar fora da asa.



Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de beleza for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer.



Sou hoje um caçador de achadouros da infância.
Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.
O mundo não foi feito em alfabeto.
Senão que primeiro
em água e luz.
Depois árvore.



A voz de uma passarinho me recita.



Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.


Gosto de viajar por palavras do que de trem.
  •    
Há um comportamento de eternidade nos caramujos.



Aqui de cima do telhado a lua prateava



Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.



Só quem está em estado de palavra pode
enxergar as coisas sem feitio.



A tarde está verde no olho das garças.



Deixei uma ave me amanhecer.



E agora o que fazer com essa manhã desabrochada a pássaros?



Poetas e tontos são feitos com palavras



Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo.



Sou fuga para flauta de pedra doce.
A poesia me desbrava.
Com águas me alinhavo”



Sol, s.m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar”



“Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser árvore.”



Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.



Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.



A inércia é o meu ato principal.
  •    
O rio que fazia uma volta
atrás da nossa casa
era a imagem de um vidro mole...


Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz...
se chama enseada...


Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.



Meu fado é de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.



"No osso da fala dos loucos têm lírios."



Experimentando a manhã dos galos



... poesias, a poesia é


- é como a boca
dos ventos
na harpa


nuvem
a comer na árvore
vazia que
desfolha a noite


raíz entrando
em orvalhos...


floresta que oculta
quem aparece
como quem fala
desaparece na boca


cigarra que estoura o
crepúsculo
que a contém


o beijo dos rios
aberto nos campos
espalmando em álacres
os pássaros


- e é livre
como um rumo
nem desconfiado...
  •    
“(…) E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.”
  •    
Liberdade busca jeito. Sou água que corre entre pedras. Quem anda no trilho é trem de ferro



Onde eu não estou, as palavras me acham.


Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina

*Fonte: https://docs.google.com/document/d/1itUsrc9490S-5ZIWOa47gBmtKJ9mZa4EYuBnPeWfr1g/edit?hl=pt_BR&pli=1

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