Imagens Sonoras: Nelson Cavaquinho
*Foto de Pedro Henrique/ abril press
*Fonte: Arquivos Vinis
Nelson Cavaquinho, poeta melancólico, cantava o belo e o efêmero com o auxílio luxuoso das flores.
"QUANDO EU PASSO PERTO DAS FLORES/ QUASE ELAS DIZEM ASSIM:/ VAI, QUE AMANHÃ ENFEITAREMOS SEU FIM".
(Eu e as Flores, em parceria com Jair do Cavaquinho)
"TIRE O SEU SORRISO DO CAMINHO/ QUE EU QUERO PASSAR COM A MINHA DOR/ HOJE PRA VOCÊ EU SOU ESPINHO/ ESPINHO NÃO MACHUCA A FLOR/ EU SÓ ERREI QUANDO JUNTEI MINHA ALMA À SUA/ O SOL NÃO PODE VIVER PERTO DA LUA"
(A Flor eo Espinho, em parceria com Guilherme de Brito e Alcides Caminha)
"ME DÊ AS FLORES EM VIDA/ O CARINHO, A MÃO AMIGA/ PARA ALIVIAR OS MEUS AIS/ DEPOIS QUE EU ME CHAMAR SAUDADE/ NÃO PRECISO DE VAIDADE/ QUERO PRECES E NADA MAIS".
A voz rascante, lixada pelo líquido de um milhão de botequins, fluía acompanhada pelo som beliscado das cordas feridas por dois dedos - técnica e estilo reconhecíveis a quilômetros. "Sei que estou / nos últimos degraus da vida / meu amor..." cantava o profeta dos desenganos, o arauto das desilusões, o menestrel da angústia. O eterno pavor da morte refletindo-se nas letras doloridas de seus sambas, nos dramas de seus personagens, nas inquietudes de suas musas. Rei dos botequins do Rio de Janeiro, tinha seu quartel-general nos balcões molhados da praça Tiradentes. Nesses cenários encontrava seus iguais, suas inspirações, sua forma de viver e ser feliz a sua maneira. A Nelson não interessavam fama e fortuna.
Violão, samba, mulheres, botequins, a soma e a essência da felicidade, a forma e a maneira encontradas de ser feliz cantando a infelicidade e de ser alegre exaltando a tristeza. Carioca de São Cristóvão, o imperial bairro de rica musicalidade, berço de - por exemplo - Sílvio Caldas, Nelson nasceu em 28 de outubro de 1910 e viveu intensamente. Começou tocando cavaquinho (daí o apelido) na adolescência e, como o pai era contramestre da banda da Polícia Militar, acabou por se tornar soldado em 1930. Casou, descasou, trocou de mulher e de instrumento, passando para o violão e criando sua maneira personalíssima de tocar. Já boêmio da mais fina extração, freqüentava os redutos de samba, principalmente na Mangueira, onde se fez amigo de Cartola, Carlos Cachaça, Zé da Zilda e outros compositores, iniciando-se na arte de criar sambas.
Totalmente desapegado de bens materiais, vendeu grande parte de sua produção, ou pagou dívidas dando parcerias a desconhecidos. A melhor fase de seu trabalho surge quando se une em parceria com Guilherme de Brito, ao qual foi apresentado em um botequim da praça Tiradentes. Jamais conseguiu (nem pretendeu) ganhar mais que o necessário para sobreviver. Tornou-se mais famoso e conhecido depois dos sessenta anos, morrendo como viveu, no Rio de Janeiro, em 18 de fevereiro de 1986.
O sol....há de brilhar mais uma vez
A luz....há de chegar aos corações
O mal....será queimada a semente
O amor...será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer
O amor...será eterno novamente
(Juízo Final)
*
Sempre só, eu vivo procurando alguém
Que sofra como eu também
E não consigo achar ninguém
Sempre só, e a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Estou chegando ao fim
A luz negra de um destino cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde estou representando o papel
De palhaço do amor...
Sempre só, e a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Estou chegando ao fim....
(Luz Negra)
*
O meu único fracasso
Está na tatuagem no meu braço
É feliz quem já viveu aflito
E hoje tem a vida sossegada
Muita gente tem um corpo tão bonito
Mas tem a alma toda tatuada
(Tatuagem)
*
Estás vendo
Esta árvore enjeitar
Folhas que envelhecem
Caídas ao chão
Até quando o vento quiser
Sei qual o destino
Destas folhas caídas
Vão rolar pelas ruas
Não serão protegidas.
Sei que há criaturas
Que até negam esmolas
Aos que vivem caídos
E não são protegidos.
Guarda o teu egoísmo
Somente te aconselho
Eu te mostro por que
Pra mim também
Já serviu de espelho.
(Folhas Caídas)
*
Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram bis
Vivo tranquilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer
Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra a gente
Hei de Ter um alguém
Pra chorar por mim
Através de um pandeiro e de um tamborim
(Pranto do Poeta)
*Fonte: Arquivos Vinis
Nelson Cavaquinho, poeta melancólico, cantava o belo e o efêmero com o auxílio luxuoso das flores.
"QUANDO EU PASSO PERTO DAS FLORES/ QUASE ELAS DIZEM ASSIM:/ VAI, QUE AMANHÃ ENFEITAREMOS SEU FIM".
(Eu e as Flores, em parceria com Jair do Cavaquinho)
"TIRE O SEU SORRISO DO CAMINHO/ QUE EU QUERO PASSAR COM A MINHA DOR/ HOJE PRA VOCÊ EU SOU ESPINHO/ ESPINHO NÃO MACHUCA A FLOR/ EU SÓ ERREI QUANDO JUNTEI MINHA ALMA À SUA/ O SOL NÃO PODE VIVER PERTO DA LUA"
(A Flor eo Espinho, em parceria com Guilherme de Brito e Alcides Caminha)
"ME DÊ AS FLORES EM VIDA/ O CARINHO, A MÃO AMIGA/ PARA ALIVIAR OS MEUS AIS/ DEPOIS QUE EU ME CHAMAR SAUDADE/ NÃO PRECISO DE VAIDADE/ QUERO PRECES E NADA MAIS".
Nem chapliniano, nem felliniano. A genialidade de Nelson Antônio da Silva era ser Nelson Cavaquinho. Certa madrugada no Leblon, voltando para casa com Paulinho da Viola, passávamos ao largo de uma feira que estava sendo armada, quando a bonita figura de despenteados cabelos brancos, abraçada ao violão, prendeu nossa atenção. Cumprindo sua sina, Nelson Cavaquinho cantava na noite, para quem quisesse ouvi-lo, e os feirantes queriam.
A voz rascante, lixada pelo líquido de um milhão de botequins, fluía acompanhada pelo som beliscado das cordas feridas por dois dedos - técnica e estilo reconhecíveis a quilômetros. "Sei que estou / nos últimos degraus da vida / meu amor..." cantava o profeta dos desenganos, o arauto das desilusões, o menestrel da angústia. O eterno pavor da morte refletindo-se nas letras doloridas de seus sambas, nos dramas de seus personagens, nas inquietudes de suas musas. Rei dos botequins do Rio de Janeiro, tinha seu quartel-general nos balcões molhados da praça Tiradentes. Nesses cenários encontrava seus iguais, suas inspirações, sua forma de viver e ser feliz a sua maneira. A Nelson não interessavam fama e fortuna.
Violão, samba, mulheres, botequins, a soma e a essência da felicidade, a forma e a maneira encontradas de ser feliz cantando a infelicidade e de ser alegre exaltando a tristeza. Carioca de São Cristóvão, o imperial bairro de rica musicalidade, berço de - por exemplo - Sílvio Caldas, Nelson nasceu em 28 de outubro de 1910 e viveu intensamente. Começou tocando cavaquinho (daí o apelido) na adolescência e, como o pai era contramestre da banda da Polícia Militar, acabou por se tornar soldado em 1930. Casou, descasou, trocou de mulher e de instrumento, passando para o violão e criando sua maneira personalíssima de tocar. Já boêmio da mais fina extração, freqüentava os redutos de samba, principalmente na Mangueira, onde se fez amigo de Cartola, Carlos Cachaça, Zé da Zilda e outros compositores, iniciando-se na arte de criar sambas.
Totalmente desapegado de bens materiais, vendeu grande parte de sua produção, ou pagou dívidas dando parcerias a desconhecidos. A melhor fase de seu trabalho surge quando se une em parceria com Guilherme de Brito, ao qual foi apresentado em um botequim da praça Tiradentes. Jamais conseguiu (nem pretendeu) ganhar mais que o necessário para sobreviver. Tornou-se mais famoso e conhecido depois dos sessenta anos, morrendo como viveu, no Rio de Janeiro, em 18 de fevereiro de 1986.
- Arley Pereira
O sol....há de brilhar mais uma vez
A luz....há de chegar aos corações
O mal....será queimada a semente
O amor...será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer
O amor...será eterno novamente
(Juízo Final)
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Sempre só, eu vivo procurando alguém
Que sofra como eu também
E não consigo achar ninguém
Sempre só, e a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Estou chegando ao fim
A luz negra de um destino cruel
Ilumina um teatro sem cor
Onde estou representando o papel
De palhaço do amor...
Sempre só, e a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Estou chegando ao fim....
(Luz Negra)
*
O meu único fracasso
Está na tatuagem no meu braço
É feliz quem já viveu aflito
E hoje tem a vida sossegada
Muita gente tem um corpo tão bonito
Mas tem a alma toda tatuada
(Tatuagem)
*
Estás vendo
Esta árvore enjeitar
Folhas que envelhecem
Caídas ao chão
Até quando o vento quiser
Sei qual o destino
Destas folhas caídas
Vão rolar pelas ruas
Não serão protegidas.
Sei que há criaturas
Que até negam esmolas
Aos que vivem caídos
E não são protegidos.
Guarda o teu egoísmo
Somente te aconselho
Eu te mostro por que
Pra mim também
Já serviu de espelho.
(Folhas Caídas)
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Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram bis
Vivo tranquilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer
Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra a gente
Hei de Ter um alguém
Pra chorar por mim
Através de um pandeiro e de um tamborim
(Pranto do Poeta)



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