A morte simbólica

*Fonte: http://mundodayoga.blogspot.com.br/2008/06/morte-simblica.html


Por Georgiana Calimeris

É preciso morrer para se viver. Todos os dias, as células do corpo humano se esvaem e se renovam sem que percebamos esses processos. Os dias sucedem seguidamente em um constante nascer e morrer. Dizemos nascer do sol e pôr-do-sol. O ocaso nos fornece uma pequena morte da luz para dar lugar a noite repousante. A morte é vista como algo escuro e brumoso, distante, em que se usa a expressão “a noite eterna”. A morte é sempre associada ao escuro. Em algumas culturas, a morte física é abraçada não com o profundo pesar do que se foi, mas, com uma comemoração e celebração pela vida da pessoa que parte, deixando saudades. Isso é mais comum nas culturas orientais. No Ocidente, a morte física deixa um rombo, um vazio, uma saudade avassaladora que, aos poucos, dá lugar a um novo momento de vida. A dor vai sendo deixada para trás, a nova rotina se estabelece e uma recuperação se faz presente. Nem sempre a superação acontece como no caso da partida de filhos ou quando uma vida em sua plenitude se esvai sem ter tido a chance de fenecer no tempo certo. Para todos, sem exceção, existe a necessidade de se lidar com a perda.

Para isso, o ser humano passa por cinco estágios de acordo com Elizabeth Kluber-Ross: 1. choque, negação e isolamento; 2. raiva, revolta contra tudo; 3. barganha; 4. depressão e, por fim, 5. aceitação, em que “o amor pela vida, quando a toma como um em fim em si mesma, se transforma em um culto pela vida”. Esses estágios servem não só para o luto físico como também para o luto da morte das personas que habitam o homem. Há um momento em que o ser humano que, como os heróis, decide enfrentar o mundo e, entenda-se aqui, o seu mundo interno, busca solucionar aquilo que lhe massacra a alma. Quando se chega no ponto da decisão do enfrentamento, nu e cru, muitas coisas morrem e aquela parte que fenece também luta para que não deixar de existir.

É um processo complexo em que o ser humano cria muralhas para se proteger e, depois, ele necessita derrubá-las para nascer. É certo que ninguém gosta de sentir dor e é possível perceber que a dor psíquica, em alguns aspectos, torna-se pior que a dor física, pois, eventualmente, a dor física passará como quando se quebra um osso, que doerá até que o corpo se cure. Sendo retirado o gesso, algumas sessões de fisioterapia, em breve, o homem esquece a dor que teve e o incômodo causado pela quebra do osso. Assim, também é feito quando se vai a um dentista e há uma extração dolorosa de um dente. Mal necessário, mas, que não influenciará a vida do ser humano o suficiente para voltar a se preocupar com isso a não ser que a ida ao dentista seja associada a algum processo traumático, que acarrete em grande ansiedade, gerando no corpo reações até mesmo involuntárias diante da ida ao dentista.

Os processos de associação no cérebro estão presentes o tempo todo, mesmo que sejam imperceptíveis a olhos nus. Os olhos da alma sabem e veem tudo e deixam pistas inegáveis para os incautos que tentam deixá-los à distância e à deriva. Assim sendo, estes eventos vêm à tona, vez ou outra, gerando profunda angústia e desespero. Em um dado momento da vida da pessoa, há uma necessidade de se proteger o núcleo do ser para que a funcionalidade se mantenha ativa até que se possa quebrar as barreiras antes criadas e ainda presentes. Aqui, cabe um parêntese, pois, pode se haver uma confusão quando há referência a eventos transformadores na vida do ser humano. É certo que quando vamos crescendo, absorvemos comportamentos a partir da infância, que nos impele a nos tornarmos homens e mulheres plenos. No entanto, nem sempre isso ocorre com todos os seres humanos, pois, há aqueles que viveram situações extremas logo no começo de suas vidas (infância). Muito do que se vive nos anos pregressos determinam as vivências da vida adulta. Pessoas que cresceram em zonas de guerra desenvolvem hábitos na vida adulta que foram determinados na infância como o trancar excessivo de portas, mesmo quando não há mais necessidade de se trancar portas ou busca abundância na mesa, quando se passou fome.

Toda situação extrema vivenciada sem que a mente esteja preparada gera uma tentativa de se resolver a questão de outra forma que não o enfrentamento. Os hábitos e comportamentos são adquiridos e deixados ali sem que se dê a devida importância até que surge a necessidade de se lidar com o fato em si, mesmo tendo se passado muitos anos. Acredito que os transtornos de pânico e ansiedade generalizada são um grito da psique para que se haja uma resolução daquilo que não pode ser resolvido antes pela falta de maturidade. Assim, é uma forma que se tem para que os conflitos venham à tona de modo que possam ser resolvidos devidamente. Para Anne McNeely no livro Tocar, Terapia do Corpo e Psicologia Profunda, a solução para os problemas da alma é o enfrentamento. Não há outra forma de se chegar à paz. Os caminhos são diversos para se encontrar o momento de repouso aliviante.

No inconsciente, os eventos vividos em intensidade (em qualquer fase da vida) ficam retidos e passam a ser vivenciados a todo instante e pior ainda quando se trata da aproximação do que já foi vivido anteriormente. Não só há uma ansiedade, que beira o desespero total como também há um dano psicológico profundo que leva a pessoa a: despersonalização, desconexão com seu corpo, uma sensação profunda de abandono, tristeza, depressão e isolamento social. Dependendo do que se viveu, há uma agressividade para com outros seres humanos devido ao medo recorrente da repetição do evento. O medo passa a ser uma constante na vida do ser humano que teve sua psique invadida de modo brusco. Há situações em que a lembrança deixa de existir também como forma de auto-proteção como no caso de abusos infantis, embora o comportamento desenvolvido posteriormente, demonstre claramente o que possa ter ocorrido como a erotização precoce. São pistas sutis e, talvez, delicadas demais, pois, na grande maioria dos casos de abuso sexual infantil, o perpetrador é alguém da família.

As pessoas vítimas de algum tipo de abuso de poder como, por exemplo, crianças presas em ambientes fechados por empregadas ou babás ou que tenham sofrido sido espancadas por alguém em quem confiavam, desenvolvem comportamentos na vida adulta ligados ao trauma inicial. Algumas passam a vida sentindo um grande vazio, sem realmente se sentirem integradas ao mundo. Sabem haver algo errado com elas, mas, não distinguem com clareza o que é, pois, o caminho de volta, normalmente, está relacionado em olhar as migalhas de pão deixadas para trás como no conto infantil de João e Maria. No entanto, em algum momento, os passarinhos comem as migalhas e o caminho se perde por ser extremamente dolorido encarar a questão.

Então, como fazer? O que fazer com a dor que se lança na alma e corrói? Depende de cada caso. Em casos em que a memória ainda ativa os momentos de brusquidão, a pessoa percebe a escolha entre permanecer com o medo embotando o discernimento e buscar um jeito de lidar com a situação e viver a vida normalmente. Em casos em que a memória não alcança e a dor se faz presente, é preciso coragem. Mas, novamente, como João e Maria, perdidos na floresta escura e com fome, o ser humano busca abrigo em uma casa de doces, em que podem comer à vontade (leia-se aqui comportamentos obsessivos, a tentativa de compensar o vazio seja com drogas, álcool, compras excessivas, auto-flagelo, etc). Na história, Maria se torna a empregada da bruxa enquanto o irmão fica preso, tendo que engordar para virar comida para a bruxa. Algumas pessoas acham mais seguro permanecer na casa da bruxa a enfrentar a saída da situação e até lá, é preciso fortalecer tanto a alma como o corpo. A tendência é separar corpo e mente, quando, na realidade, está tudo ligado e vivendo juntos as situações que impomos com as nossas vivências.

Então, quando Maria percebe que a bruxa não enxerga bem, ela desenvolve uma estratégia e pede para João mostrar um osso de galinha, fingindo ser seu dedo. Assim, ela fortalece os dois ao cozinhar, ao nutrir. Com o ser humano também é assim, é preciso se nutrir para se fortalecer para o enfrentamento. Os heróis são fortes porque passaram por treinamentos árduos. Assim, devemos fazer também com nós mesmos, fortalecer para a grande jornada. Para os que trazem uma grande carga de peso sobre a alma e que projetaram muralhas gigantes à sua volta é um trabalho de mergulho ao próprio inferno, é um trabalho de se abandonar a si mesmo e enfrentar o mundo de Hades com a integridade inteira. Morrer não é um ato simples como beber água. É um ato de desespero porque é quando se chega ao ponto da completa e total exaustão, quando a vida se torna uma sobrevivência minguada e desesperadora. É impossível respirar, que dizer, de viver!

No entanto, quando se chega nesse pedaço da trilha, aquele ser conhecido de outrora deve morrer e outros conflitos surgem porque o que se conhece é o que é confortável. Aquele pedaço que morre quer insistir em existir, apega-se à vida como um último sopro, como o Golem do Senhor dos Anéis se apega ao anel. Voltando a história de João e Maria, em uma situação de oportunidade, Maria tranca a bruxa dentro do fogão e foge com o irmão e eles reconhecem o caminho de volta para casa, agora. Na maioria das lendas, os heróis enfrentam lugares profundos e saem diferentes. Eles ainda não morreram, mas, enfrentam a morte constantemente em suas lutas, os conflitos internos do si mesmo.

Perseu, quando enfrenta Medusa, liberta Pegaso. Medusa trazia dentro de si, o veneno e o antídoto e nós também temos o veneno e o antídoto, mas, acima de tudo, antes de enfrentarmos o olhar paralisador de Medusa, precisamos nos fortalecer para que quando ela se for, possamos libertar nosso Pegaso interno e voar pelos céus. Mas, aqui, também há o aspecto da morte, Medusa morre para dar lugar ao cavalo alado. O medo dessa morte simbólica está associado ao medo do que não se conhece. É possível também que a vida proporcione algum momento em que o sentido do que se conhece mude radicalmente, transformando a necessidade de permanecer para seguir adiante porque o que antes era apenas um vislumbre da felicidade, transforma-se em realidade e tudo que se quer é ser feliz.
Nesse instante, descobre-se que a morte é um renascimento, é a fênix que queima para ressurgir esplendorosa. É quando no abandono, percebe-se que não há mais porque sofrer. Mas, antes de atingir a total entrega, cada um caminha da sua forma, no seu passo e no seu ritmo até o momento crucial do enfrentamento, que, aparentemente, parece ser a única forma de matar de uma vez por todas os monstros que assombram a alma. No entanto, nós também somos esses monstros e ao matá-los também matamos um pedaço de nós, que caminhou longamente ao nosso lado, que segurou nossas mãos inúmeras vezes em noites frias e tempestuosas. Talvez, devamos convencê-los de que eles não morrerão, mas, como nós nos transformamos, eles também se transformarão com a gente, apenas viverão de forma diferente, em corpos diferentes, ainda ao nosso lado por terem feito parte de nós e estarão caminhando ao nosso lado rumo ao pico do Everest de cada um de nós.

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