Budismo e Psicoterapia - Superando os complexos
*Fonte: http://www.viverconsciente.com/textos/budismo_e_psicoterapia.htm
Bom dia querida Sangha, hoje é 26 de Março de 2009, e nós
estamos no Upper Hamlet, durante nosso Retiro de Primavera.
Os ensinamentos do Buda, especialmente a prática da plena
consciência, começaram a ser mais difundidos na nossa sociedade, principalmente
no campo da psicologia, da psicoterapia, na educação, na ciência, e no trabalho
social.
Muitos de nós querem reunir a prática da meditação e a
psicoterapia, porque todos nós queremos curar a nós mesmos e curar o mundo;
queremos tirar o melhor do insight ocidental sobre psicologia, psicoterapia e
também do budismo, porque há no budismo insights muito profundos sobre nossa
mente, como transformar nossa mente, como sofrer menos, como encerrar o
sofrimento.
Mas nós temos algumas dificuldades em tentar reunir as duas
coisas, por causa da nossa maneira habitual de pensar. Por exemplo, no budismo
aprendemos que não há um eu, e todas as práticas budistas devem ser baseadas na
prática do não-eu. Na psicoterapia, porém, o eu é muito importante: você
precisa ter um eu saudável, você precisa fortalecer o eu antes de ser uma
pessoa saudável -- então como fazer, o que fazer?
Há aqueles que propuseram que não se deveria fazer meditação
antes de ter feito alguma psicoterapia. Primeiro alguma terapia e depois
meditação, ou então seria muito perigoso, porque se o seu eu não fosse forte o
suficiente e você se dedicasse à meditação, sua situação poderia piorar.
Portanto, a conclusão é que você primeiro faz algum tipo de terapia e só depois
faz meditação budista.
E como na psicoterapia o eu é considerado algo de que temos
de cuidar, quando você tem baixa auto-estima você possui diversos tipos de
problemas, e por isso você tem que se livrar da sua baixa auto-estima. A
impressão é a de que você tem de se consolidar, você tem de fortalecer o eu
para superar o sofrimento e a doença. Muitos psicoterapeutas estiveram pensando
como ajudar seus pacientes a livrar-se da baixa auto-estima. A baixa
auto-estima parece ser a fundação de muitas desordens mentais.
Mas quando olhamos do ponto de vista budista, vemos que não
somente a baixa auto-estima está na fundação do sofrimento, mas que a alta
auto-estima também está. Há muita gente que pensa grande sobre si mesma. Eles
têm o complexo de superioridade, e muita arrogância, e por conta disso criaram
muito sofrimento para si e para as outras pessoas. A expressão “alta
auto-estima” não parece ter uma conotação negativa assim como a baixa
auto-estima. Mas se olharmos em profundidade veremos que o complexo de
superioridade é tão perigoso quanto o complexo de inferioridade.
Então, sob a luz do ensinamento budista não apenas a baixa
auto-estima não é boa, mas a alta auto-estima não é boa também.
E não somente não são boas a baixa auto-estima ou a alta
auto-estima, mas também o complexo de igualdade não é bom. Você pode pensar que
não deve sentir-se acima das outras pessoas nem abaixo delas, então pensa que
sentir-se igual às outras pessoas é o correto, é o bom. Mas no budismo temos um
outro complexo, o complexo de igualdade. Sou tão bom quanto ele, sou tão bom
quanto ela – isso também é um complexo. Porque o complexo vem do fato de que
você compara, um eu com outro eu. E quando você se compara, vê-se superior,
inferior ou então igual. Mas no ensinamento do Buda não há um eu, e se você não
tem um eu, não tem o que comparar. E se não comparar, não há complexo, nenhum.
Então, como reconciliar o ensinamento sobre não-eu com o
ensinamento sobre a consolidação do eu? Remover a baixa auto-estima é uma grande
questão na psicoterapia. Portanto, há alguns dentre nós que dizem que primeiro
devemos fazer alguma terapia para só depois tentarmos a meditação. Primeiro
fortalecer-nos, para depois abdicarmos. Primeiro eu, depois não-eu. Assim, a
prioridade é a psicoterapia, e depois a meditação. Existe muita confusão nesse
pensamento, porque você nunca se aprofunda o suficiente em nenhuma das duas
disciplinas, em termos de prática. Fica-se mais no nível da especulação e dos
conceitos. Mesmo nos círculos budistas há quem fique no nível dos conceitos e
da especulação.
Num instituto budista nós aprendemos muito sobre budismo,
teoricamente, e não temos prática suficiente, que nos ajude a ter insight, que
é o que vai nos transformar e remover o sofrimento.
Quando você vem a Plum Village, você percebe que aqui não é
um instituto de estudos budistas no sentido comum. Sim, aqui aprende-se
budismo; todos os dias nós aprendemos. Mas nós nos dedicamos a por em prática
tudo aquilo que aprendemos. Não nos contentamos em falar sobre a filosofia
profunda, o profundo ensinamento do Buda. Não ficamos discutindo sobre nirvana,
a dimensão absoluta, mahaprajnaparamita ou as Quatro Nobres Verdades
simplesmente para satisfazer nossa curiosidade. Budismo -- não como
conhecimento, mas como prática.
Então quando você fala sobre as Quatro Nobres Verdades, o
Caminho Óctuplo, impermanência, não-eu – temos de encontrar maneiras de
experienciar estas coisas, diretamente, no nosso cotidiano. E Plum Village é
uma tradição que enfatiza bastante este aspecto. Estudos budistas deveriam ser
bem palpáveis, e nós devemos ser capazes de aplicá-los em nosso dia-a-dia.
Por exemplo, quando você está praticando Inspirando. No
início, você acredita que é você quem quer inspirar. Sou eu quem está
inspirando, não uma outra pessoa. “Inspirando, eu sei que estou inspirando” –
assim é a frase quando traduzida para o Inglês (Breathing in, I know I am
breathing in). Mas em outros idiomas, assim como em Vietnamita, não há
necessidade de usar o eu, ou o você. [Thây fala em Vietnamita] Inspirando, sei
que estou inspirando; Inspirando, sabendo que estou inspirando. É possível
dizer assim.
No início, podemos achar que há um “eu” inspirando e
expirando. Mas se praticarmos realmente, iremos descobrir que ninguém está
inspirando ou expirando. Há somente a inspiração acontecendo, e a expiração
acontecendo. Claro que há a intenção de inspirar, a intenção de expirar, o
prazer de inspirar, o prazer de expirar. O fato é que a respiração está lá,
existe. Mas você não precisa de um “ser respirador” para respirar. Isso pode
ser difícil de aceitar, no começo, porque você ainda está no nível da
conceitualização. Porém, com um pouco de prática você irá enxergar e tocar a
verdade. Não há um “respirador”, há somente a respiração acontecendo. Não há um
pensador, há apenas os pensamentos se sucedendo.
Nós não estamos familiarizados com isso, porque achamos que
precisa existir um pensador para tornar possível o pensar. Penso, logo existo,
logo sou. Se o eu não existir, o pensar não poderá existir, então o fato de o
pensamento existir é uma prova de que há um “eu”, um pensador.
Há uma diferença de pensamento, de percepção das coisas,
dentro dessa tradição. E todos nós fomos influenciados pelo modo cartesiano de
pensar -- precisamos reconsiderar isso.
Você está convidado a inspirar e a olhar em profundidade e
ver que, enquanto está inspirando, todos os seus ancestrais estão inspirando
junto com você. [pausa para inspirar] E este é o início da verdadeira
experiência do não-eu.
Em Plum Village temos o exercício que diz Inspirando, convido o meu
pai a desfrutar da inspiração comigo. Eu sei que meu pai existe em cada célula
do meu corpo, de alguma forma, e eu sou uma continuação do meu pai. Ele
transmitiu seus genes a mim, e está presente de fato em todas as células do meu
corpo. É por isso que, inspirando, posso reconhecer meu pai no meu próprio
corpo, em cada célula do meu corpo, e isso é algo possível e também fácil de
fazer. Então Inspirando, convido o meu pai a desfrutar da inspiração comigo
torna-se possível e não requer muita imaginação – porque isso é uma realidade,
você é a continuação do seu pai. Você não pode tirar o seu pai de você. Você
não pode tirar a sua mãe de você. O fato é que quando você está inspirando, ela
está inspirando em você... Mãe, inspirando eu me sinto tão leve... Você se
sente tão leve quanto eu? Este é um dos exercícios de respiração oferecidos
aqui em Plum Village. Inspirando, eu me sinto tão leve... Paizinho, você se
sente tão leve quanto eu?
Enquanto praticamos respirar assim, nós não estamos brigando
contra a idéia de um eu, nós estamos saindo da noção de um eu. Porque nós
sabemos que o eu é feito de elementos não-eu. Sou feito de pai, mãe,
ancestrais, ar, água, nuvem, e muito mais... Então, se reconheço todos estes elementos
não-eu constituindo o eu, começo a ver a noção do eu fragmentar-se em muitas
partes.
Não há um eu, há apenas uma noção de eu.
É possível para todos nós nos sentarmos assim relaxadamente,
e respirarmos com nossos ancestrais, por nossa mãe, por nosso pai, nossa avó,
nosso avô – todos os nossos ancestrais. Que maravilha saber que você está ali
representando os seus ancestrais, que você é a continuação deles! Você não é
mais um eu, você é ao mesmo tempo todos os seus ancestrais. Assim, uma única
inspiração pode liberar você – uma respiração com esse insight pode liberar
você.
Que gentil da sua parte respirar por seu pai, por sua mãe, e
relaxar seu corpo. Quando você relaxa seu corpo, o corpo do seu pai e da sua
mãe em você também está relaxado. É como um milagre. E você pode ver que
transporta todas as gerações de ancestrais em você – aonde quer que você vá,
eles vão com você. Quando você dá um passo, em plena consciência, tocando as
maravilhas da vida, todos os ancestrais em você estão dando o mesmo passo, ao
mesmo tempo. E ao dar um passo assim, com esse tipo de sabedoria, você está
livre da noção de eu. Isso é muito curador, muito transformador.
Nós sofremos, sentimos raiva, desespero – porque ainda
estamos presos à noção de um eu. Sentimo-nos tão solitários, tão separados. Não
tocamos a nossa comunhão.
O ensinamento sobre não-eu não nos diz que não existimos.
Você existe sim, de verdade – como uma manifestação, uma manifestação
maravilhosa. Corpo, sentimentos, percepções, formações mentais, consciência –
rios de continuação. E é um rio maravilhoso. Há uma palavra em Sânscrito,
santana (assim como o nome daquela cidade na Califórnia), que significa
continuidade. Não há um eu, mas há uma continuidade dos cinco rios, dos cinco
skandhas. Sempre mudando – mas há uma continuação. Nós continuamos nosso pai,
nós continuamos nossa mãe, nós continuamos nossos ancestrais.
E se olharmos em profundidade o nosso corpo, nossos
sentimentos, vemos que somos a continuação também de nossos ancestrais animais,
vegetais e minerais. Temos nossos ancestrais humanos, porém eles são os mais
jovens dentre todos. Antes de nos tornarmos humanos, fomos animais, plantas e
minerais. Então, todos os nossos ancestrais, incluindo minerais, vegetais e
animais, ainda estão em nós. Se você for livre, eles serão livres. Se você
estiver relaxado, eles estarão relaxados. E para isso você não precisa fazer
muita coisa. Precisa apenas inspirar com esse tipo de insight, para liberar-se,
e para ajudá-los todos a se liberar. Precisa dar um único passo, com esse
insight, para liberar-se e ajuda-los a desfrutar da mesma liberdade também.
Você tem uma semana para ficar em Plum Village, ou
você tem três semanas para ficar em Plum Village – cada momento da sua
estadia pode ser uma oportunidade para fazer isso, para respirar com
insight, para
caminhar com insight, para comer com insight. Quando você se alimenta,
está
alimentando seus ancestrais.
Eu me lembro quando há 20 anos atrás nós tivemos um almoço piquenique
em Montreal. Estávamos em um retiro, e naquele dia fomos a um bosque fazer piquenique.
Eu estive caminhando pelo bosque, observando. Houve um praticante que se sentou
ao pé de uma árvore, para almoçar. Eu disse: Irmão, o que você está fazendo?
Ele olhou para mim e disse: Estou dando de comer ao Thây. E eu disse: Muito
bem. Porque ele sabia que Thây estava nele, e que comendo daquela maneira ele
estaria alimentando o Thây nele. O fato é que, cada vez que comemos,
alimentamos nossos ancestrais. Nossos ancestrais continuam a viver porque nós
os alimentamos todos os dias. Não só com alimentos comestíveis, mas para o bem
estar deles, temos de dar a eles o alimento espiritual.
Então, toda vez que você respira, convide todos os
seus
ancestrais para respirar com você, e você terá esse insight que tem o
poder de
libertar, de transformar. Toda vez que você caminhar, convide seus
ancestrais
para virem com você, e desfrute de cada passo -- de qualquer jeito, eles
estarão com você, quer você os convide ou não. Eles estão em você. Mas
se você estiver consciente disso, se você mantiver esse insight, você
enxergará a
verdade.
Por favor, desfrutem de si mesmos, de sua prática, de sua
caminhada.
(Palestra de Dharma de Thich Nhat Hanh em 26 de março de
2009 em Plum Village)

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