Capítulo 3 - A Dança (Oriah Mountain Dreamer)

Esse livro caiu em minha mão magicamente. A cada dia entendo melhor os acontecimentos, vejo quanta coisa atrai e continuo atraindo, portanto, hoje sei que realmente nada é por acaso. Na primeira página já me apaixonei, eu realmente sentia que ela estava falando comigo e das minhas experiências. Este capítulo me tocou muito, principalmente depois de minhas últimas descobertas, reli-o algumas vezes para compreender bem a tal da COMPAIXÃO.




Fora de Compasso


Não me diga que você quer encerrar o mundo inteiro no seu coração.

Mostre-me como você evita cometer outra falta sem se desesperar quando sofre uma agressão e tem

medo de não receber amor.

Achar que há algo errado com uma pessoa significa tomar a decisão de colocá-la fora do nosso coração. E o tipo de crítica que diz ao eu do outro: "Você é um imbecil, um merda! Há alguma coisa fundamentalmente errada com você!".

Existem muitas maneiras de transmitir essas coisas, de demonstrar que alguns aspectos seus ou da outra pessoa estão errados, sem jamais pronunciar palavras tão  duras. Aqueles, como eu,  que fizeram  anos de terapia  e  compareceram  a  um  sem-número  de  seminários  de desenvolvimento pessoal sabem como dissimular as críticas que magoam e separam as pessoas, fazendo afirmações habilidosamente construídas, começadas por "eu", evitando as declarações acusatórias iniciadas por "você" ou a auto-reprovação descaradamente malévola. Mas, mesmo assim, a crítica ainda está presente no tom da voz, como uma espada afiada que avança por baixo, decepando a outra pessoa na altura do joelho, enquanto calmamente lhe fitamos os olhos. Ela está presente na nossa expressão corporal, na leve inclinação da cabeça, no estreitar dos olhos quando observamos a outra pessoa ou nos olhamos no espelho. Ela está presente na maneira   como   nos   esgotamos   trabalhando   demais   em   coisas   sem importância, relacionando-nos com pessoas que não se importam conosco. A crítica diz a mesma coisa tanto para a outra pessoa quanto para o eu: você não é suficiente.

Pela manhã, eu medito, suavizo minha respiração e procuro alcançar aqueles que estão sofrendo. Tento encerrar no coração o mundo e a parte de mim mesma que está assustada. Depois, avanço em direção ao meu dia, rezando para me lembrar que eu sou compaixão, esperando ser capaz de manter o coração aberto. Alguns dias são melhores do que outros.

Estou tomando o café da manhã num retiro. Eu me apresentei a dois homens sentados à mesa e começamos a falar um pouco de nós mesmos enquanto comemos ovos mexidos e tomamos chá. Um homem alto e atraente se junta a nós e diz chamar-se Sam. Quando ouve meu nome, seus olhos se iluminam. "Oriah? Você escreveu O Convite?" Por e-mail alguém lhe enviara uma  cópia do  poema. "E  um  prazer  conhecê-la", diz  ele  entusiasmado, tirando de dentro do casaco uma máquina fotográfica. "Realmente quero registrar este momento".

Estremeço ao ver a câmera e ergo a mão. "Sinto muito, Sam. Eu não gosto de tirar fotografias, nem mesmo nos meus melhores momentos, e certamente o café da manhã não é um deles". Tenho nos lábios um sorriso agradável, mas sou clara e firme. "Por que você não toma café conosco?" Ele se senta ao meu lado com a máquina ainda na mão.

"Ora, que bobagem. Existem momentos que simplesmente têm que ser captados". Ele leva a câmera ao rosto e começa a ajustar o foco. "Não. Eu realmente não gosto de ser fotografada. Estou falando sério — eu realmente não quero que você tire a foto".

Ele continua a ajustar o foco, inclinando-se para trás e para a frente na cadeira para obter ângulos diferentes. "Isso é importante. Você tem que tirar a foto!" Seu tom de voz é insistente e cada vez mais agressivo. Olho, perplexa, para os outros homens à mesa, que estão visivelmente constrangidos. Não sei como me comunicar com Sam.

Ele persiste. Durante cinco minutos fica insistindo que precisa tirar minha foto. Sinto meu rosto ficar tenso devido ao esforço de tentar sorrir, de tentar manter meu tom de voz ao mesmo tempo firme e neutro, enquanto vou dizendo não. Sem dar atenção à minha recusa, ele dispara o obturador e tira uma foto. Sinto algo dentro de mim desistir. A conversa à mesa se tornou impossível. Finalmente, querendo apenas que tudo aquilo acabe o mais rápido possível, fico sentada, imóvel, enquanto ele tira de dez a quinze fotos. Sei que elas vão ficar horríveis. Fechei uma parte de mim e fico sentada, sofrendo calada. As fotos certamente vão refletir minha disposição de ânimo.

Deixo a mesa zangada e irritada. Mais tarde, no mesmo dia, conto a um amigo o que aconteceu. Ele se mostra solidário e concordamos que o homem invadiu meu espaço. Eu me sinto um pouco melhor.

À noite, deitada na cama, repasso mentalmente todo o incidente. Fico furiosa pensando como esse cara foi idiota e imaginando todas as coisas que eu podia, ou devia, ter dito ou feito. Eu devia ter agarrado a câmera quando ele começou a tirar as fotos, abrindo-a e estragando o filme. Eu devia ter me levantado e  perguntado num tom  de  voz  que todo mundo no  salão de refeições ouvisse: "Você não entende o significado da palavra não?".

Mas aí eu paro. Meditei o dia inteiro sobre a compaixão amorosa. E relativamente fácil e estimulante pensar em encerrar no coração os doentes, os pobres ou as partes do mundo, ou de mim, que estão sofrendo. Mas e esse cara, o Sam? Não sinto por ele nenhuma compaixão. Meu coração endurece quando penso nele me pressionando daquela maneira, sem respeitar meus limites. Mas vamos enfrentar os fatos: estamos falando de uma foto, não de um ataque físico. Eu tinha todo o direito de insistir que não queria  que  ele  tirasse  uma  fotografia  minha,  mas  será  que  tinha  uma maneira  de  dizer  isso  a  ele  sem  transformá-lo  num  Idiota?  Fico  me debatendo com isso. Como dizer delicadamente a alguém para "se mandar?" Não quero ver Sam como um outro eu. Tenho certeza de que eu nunca insistiria em tirar fotos de uma pessoa sem a permissão dela.

Fico sentada na cama e acendo a luz, perturbada pelo fato de não conseguir enxergar nenhuma maneira de realmente sentir que este homem está no meu coração. Dizer ou pensar que sinto muito não basta. De que adiantam todas as horas que eu passo meditando sobre a compaixão, se não consigo descobrir uma maneira de manter meu coração aberto para alguém que me irrita profundamente? Se não consigo fazer isso, como posso esperar ter compaixão por aqueles que realmente fazem mal a mim ou aos outros?

Sento-me numa posição confortável, fecho os olhos e me concentro na respiração. Estou determinada a ficar sentada e meditar até conseguir me conectar  de  alguma  maneira  com  Sam.  Não  estou  procurando  um sentimento afetuoso. Estou tentando perceber Sam  como  outro  eu,  um semelhante que eu posso encerrar conscientemente no meu coração.

Passa-se um longo tempo e começo a perder a esperança. O quarto está ficando frio e o que eu quero mesmo é dormir. Quando penso no incidente da manhã, tudo que sinto é raiva e aversão. Não consigo me identificar com coisa alguma no comportamento de Sam. Começo a rezar: "O Seres Sagrados, ajudem-me a encontrar um jeito de não deixar esse homem fora do meu coração. " Espero. Respiro. Repito minha prece. Surgem as perguntas: Por que Sam não deu atenção aos limites que eu claramente estabeleci? Por que ele não se importou com o fato de suas ações estarem violando esses limites? Imediatamente surge a resposta: porque ele queria muitíssimo fazer o que queria — uma boa foto e uma conexão pessoal comigo naquele momento. Ironicamente, ao insistir, ele destruiu qualquer possibilidade de conseguir qualquer uma das duas.

De repente, penso nos meus filhos quando eram pequenos, o modo como eles às vezes se fixavam em algo que queriam, implorando, tentando me agradar e me pressionando insistentemente depois de eu ter repetido não muitas vezes, me deixando zangada e destruindo qualquer chance de conseguirem o que queriam, tanto naquele momento quanto depois. Eu me lembro do primeiro e único acesso de raiva de Nathan aos três anos de idade, seu corpinho explodindo com a ira de exigências não satisfeitas. Por acaso eu expulsei algum dos dois do meu coração por estarem me irritando e fazendo exigências? Não. Eu cedi aos pedidos deles? Não. Tinha geralmente um bom motivo para ter dito não pela primeira vez, e a insistência deles não modificava essa razão.

Pensar nos meus filhos faz surgir uma pequena possibilidade de me tornar capaz de encerrar alguém no coração, mesmo quando essa pessoa está exigindo de mim uma coisa que não estou disposta ou sou incapaz de dar. De repente, vejo Sam como um terceiro filho que está descontrolado, desejoso de que as coisas sejam como ele quer naquele exato momento e, em função disso, agindo de uma maneira que garante que ele não vai conseguir o que deseja. Meu coração começa então a se sensibilizar diante da condição humana daquele homem, do sofrimento que ele causa a si próprio.

Penso então nas ocasiões em que eu quis que as coisas fossem — de certa maneira — da minha maneira. O modo como, já no final do meu segundo casamento, eu queria — desejava ardentemente — que meu marido conversasse comigo, me abraçasse, ficasse comigo no fim do dia, quando ele estava exausto e desanimado demais e só queria ficar sozinho. A maneira como  eu  o  perseguia, ostensiva ou  dissimuladamente, pedindo, pressionando, insistindo, acusando, o tempo todo, sabendo que meus atos só faziam aumentar a distância entre nós e, no entanto, no meu desespero, sendo incapaz de parar.

As situações são diferentes, mas a motivação que faz com que cada um de nós não leve em conta os desejos dos outros — querendo impor a nossa vontade — é a mesma. De repente, pude ver Sam apenas como um ser humano igual a mim em meus maus momentos, e consegui encerrar no coração a parte dele que eu tinha descoberto, a criança desesperada que está com medo de não conseguir o que quer. Abri um espaço para Sam em meu coração da mesma maneira como consigo guardar a mim e a meus filhos no coração quando insistimos em vencer a parada.

Ao me sensibilizar com Sam, pude enxergar com muito mais clareza meu comportamento da manhã. Como eu já não precisava mais tornar Sam um Idiota, também não tinha necessidade de ser a Vítima Virtuosa. Por que eu não tinha simplesmente me levantado e ido para outra mesa? Porque, talvez, eu estivesse lisonjeada por receber a atenção de um homem atraente. Meus vizinhos de mesa nunca tinham ouvido falar no meu poema, e a reação entusiástica de Sam fez com que todos soubessem que estavam sentados com uma Escritora. Mais tarde, ao solicitar a solidariedade do meu amigo contando-lhe o ocorrido, pude ter a sensação de que eu estava certa e Sam errado.

Resmungo, rio em voz alta, apago a luz e deslizo para debaixo das cobertas. Tanto a minha presunção quanto a insistência de Sam em impor a sua vontade contribuíram para criar a situação. Balanço a cabeça ao pensar na nossa condição humana.

Na  qualidade  de  seres  que  têm  compaixão,  somos  capazes  de encerrar no coração todos os aspectos do mundo e de nós mesmos, inclusive os aspectos irritantes, maldosos e totalmente desagradáveis. Mas temos que estar dispostos a nos esforçar para descobrir como fazer isso, observando sinceramente nossas ações e reações internas e externas e aprendendo com cada circunstância a expandir nossa capacidade de viver a compaixão.

Pense em todas as situações em que você se separa dos outros, estabelecendo uma distinção entre "nós" e "eles". No minuto em que fazemos isso, estamos construindo a idéia do nosso próprio eu, não baseados no que realmente somos, e sim tentando nos sentir melhores do que os outros, por causa do nosso medo de não sermos suficientes. Eu me vejo fazendo isso o tempo todo.

E quando olho com sinceridade e compaixão, descubro que estar certa não é uma exigência necessária para eu ser feliz.

Tenho criticado abertamente alguns aspectos da espiritualidade da Nova Era. Ê claro que existe alguma verdade nas minhas críticas, e continuarei a levantar questões sobre todos os caminhos espirituais porque estou interessada em saber a verdade até onde for possível. Mas existem maneiras de fazer perguntas que abrem para um honesto questionamento — o questionamento de quem pergunta porque, de fato, quer entender — e maneiras de fazer perguntas que fecham a comunicação. E existem ainda maneiras destinadas a estabelecer uma diferença entre "nós" e "eles", maneiras com o objetivo de fazer com que eu sinta que estou certa — que sou mais autêntica, mais equilibrada e mais inteligente — fazendo com que a outra pessoa esteja errada.

Alguns  meses   atrás,   compareci  a   um   evento  de   dia   inteiro apresentado por uma conhecida palestrante da Nova Era. O livreiro presente ao evento tinha me pedido que fosse ajudá-lo na mesa dos livros, depois da apresentação. Bonita e divertida, a oradora atraiu uma audiência de várias centenas de pessoas e durante a palestra apresentou as idéias e práticas de muitos mestres espirituais tradicionais combinadas à sua filosofia particular da Nova Era. A audiência estava fascinada e eu me esforçava ao máximo para manter a mente aberta. Eu não concordava com grande parte das convicções daquela mulher e fiquei inquieta com a absoluta certeza que ela demonstrava de que cada um de nós cria e controla cada aspecto da própria vida. Os resultados que ela liberalmente garantia a qualquer pessoa desejosa de seguir os nove passos do seu programa ou de fazer as afirmações diárias que ela oferecia me deixaram muito pouco à vontade. Resultados garantidos e passos demarcados podem ser seguros e úteis para assar biscoitos e montar estantes de livros, mas eu os considero arriscados e potencialmente enganadores quando estamos falando a respeito de encontrar um significado para a vida e criar a felicidade.

Continuei a olhar para os participantes, muitos concordando com a cabeça e demonstrando um entusiasmo que eu sabia carecer de uma visão mais crítica. Senti o desejo e a tendência de me separar dessas pessoas. Elas estavam aceitando aquilo? Por quê? Eu não tinha dúvida de que elas sabiam que não havia respostas fáceis, medidas simples capazes de curar todas as desgraças da vida. Talvez elas fossem apenas preguiçosas. Mas, mesmo enquanto eu me separava das pessoas, estava consciente do que estava fazendo, procurando achar uma maneira de não fechar meu coração aos que estavam ao meu redor, de não diminuí-los na minha mente como sendo inferiores a nós que sabemos que o desenvolvimento espiritual pode ser difícil e que não existem respostas fáceis.

Após o evento, trabalhei na mesa onde eram vendidos os livros, conversando com as pessoas que estavam indo embora. Uma mulher se aproximou de mim enquanto eu arrumava minhas coisas e me fez perguntas a respeito das técnicas de meditação que a palestrante tinha defendido. Era uma meditação matutina, relativamente simples, projetada para acalmar a mente e fazer a pessoa se concentrar na respiração, e a oradora garantira que a prática regular dessa meditação daria à pessoa o poder de manifestar o que ela quisesse na vida.

Era uma mulher baixa e magra, vestia um agasalho de lã longo, com um capuz muito grande para ela. Apresentou-se como Isabel. "Posso fazer essa meditação sozinha?", ela perguntou. "Pode", respondi. "Estou certa de que você pode, embora muitas pessoas achem mais  fácil  começar uma prática de meditação com um grupo. E difícil manter a disciplina sozinha".

"Mas o que eu vou conseguir com isso? O que eu vou ganhar se fizer a meditação todos os dias?" O tom da voz dela assumiu uma qualidade lamurienta e eu senti que estava ficando irritada. "Quanto tempo vai levar para dar resultado? Vou notar alguma diferença depois de uma semana? Como vou saber se está funcionando?".

Esse era exatamente o tipo de coisa que eu detestava — a procura de uma solução rápida, o desejo de resultados garantidos, a resposta simples. Faça isso e conseguirá aquilo. Essas eram, eu pensei, exatamente as expectativas que  uma  apresentação como  a  que  eu  acabara de  assistir provocavam. E onde estava a mulher que as provocara? Tinha ido embora, deixando-me lá para responder perguntas para as quais não tinha respostas curtas e simples. Meus filhos estavam esperando por mim e eu queria ir para casa.

Respirei profundamente, olhei  diretamente para  Isabel e  coloquei minha mochila no chão. Tentei falar devagar, achando que talvez assim eu teria mais paciência. "Bem, a meditação é mais um processo do que uma atividade voltada para um resultado. Ela pode ajudá-la a ficar mais consciente do que está acontecendo dentro e ao redor de você e isso pode reduzir o estresse. Não há como saber quanto tempo vai levar para isso acontecer. Eu já medito há anos. Existem dias em que minha mente está completamente dispersa e outros em que eu tenho uma verdadeira sensação de  paz  e  tranqüilidade. Meu  melhor  conselho é  simplesmente que  você procure ser paciente com você mesma". Peguei minha mochila e comecei a abotoar meu casaco. Eu realmente tinha que ir embora e queria sair enquanto estava me sentindo virtuosa por não arrancar a cabeça dela.

Mas quando comecei a me afastar, Isabel, de repente, agarrou meu braço com uma força surpreendente. "Espera aí. O que eu quero saber" — e o tom de sua voz foi num crescendo que se aproximava de um verdadeiro pânico — "é se a meditação vai me ajudar a encontrar Deus. Se eu meditar, terei a experiência de alguma coisa ou de alguém que está lá fora me ouvindo, uma coisa que está realmente comigo?".

Uma onda de desespero deslocou-se dela em direção a mim e fiquei surpresa ao perceber que meus olhos estavam cheios de lágrimas. Essa mulher não estava buscando uma resposta fácil ou uma fórmula garantida por ser preguiçosa. Ela não queria um plano simples porque era incapaz ou não estava disposta a pensar criticamente a respeito do que iria funcionar. Ela queria algo que funcionasse rápido, porque estava com a corda no pescoço. Ela queria algo que desse resultado em uma semana, porque tinha medo de não conseguir resistir se o processo levasse meses ou anos. Ela queria saber... sentir que tinha realmente algo maior do que ela, e estava apavorada, com medo de não ser capaz de prosseguir se não tivesse logo essa experiência. Reconheci outro eu: o eu que está às vezes no limite extremo de sua resistência, sem saber se é possível continuar. O eu que está sentindo tanta dor que cada respiração parece ser o único desafio que ele é capaz de enfrentar.

Coloquei gentilmente a mão sobre a de Isabel, agarrada ao meu braço.   "Está   tudo   bem,   Isabel,   todos   nós   às   vezes   nos   sentimos desesperados. Ninguém faz tudo sozinho. Todos nós precisamos de ajuda". A mão relaxou debaixo da minha e ela começou a chorar. Conversamos um pouco mais e dei o nome de alguns professores de meditação que dirigiam pequenos grupos na cidade, estimulando-a a encontrar uma comunidade onde pudesse se sentir amparada. Quando fui embora, não me afastei de um "deles". Eu disse até logo para um de "nós", um ser humano que está fazendo o melhor que pode, procurando o lar pelo qual o coração de todos nós anseia.

Não existe nenhum eles. Só existe nós. Quando nos separamos dos aspectos da condição humana de que não gostamos, fazemos isso basicamente por medo de que esses aspectos estejam vivos em nós. E a verdade é que estão mesmo.

No caminho de casa, comecei a pensar em outras pessoas da audiência. Algumas, sem dúvida, não estavam em uma busca desesperada como Isabel. Provavelmente desejavam divertimento e respostas fáceis, porque não queriam ter o trabalho de cultivar o aspecto espiritual de sua vida. Eu já não precisava mais me separar delas. Comecei então a pensar nas situações em que eu desejo uma resposta fácil e um resultado garantido, porque quero escapar do trabalho. Lembrei imediatamente do exercício físico e de todo o dinheiro gasto com academias, equipamentos de ginástica e um sem-número de fitas de vídeo de treinamento, para descobrir finalmente que comprar todas essas coisas não nos faz ficar em forma. É preciso realmente fazer exercício. Será que eu era tão idiota a ponto de não saber disso? Claro que não. Eu simplesmente não queria me esforçar.

Reconhecer que eu posso ter preguiça de me exercitar, assim como outras pessoas podem ter preguiça de se dedicar à prática espiritual, não livra nenhum de nós desses sentimentos. O fato de compreender o comportamento de Sam e me lembrar que também sou capaz de passar por cima dos limites dos outros quando quero obsessivamente que as coisas sejam do meu jeito não significa que Sam ou eu sejamos justificados quando fazemos isso. Significa apenas que estamos diante de um problema humano que é nosso — de nós todos — e não apenas dele, embora naquele momento seja ele quem o está representando. Sentir compaixão não significa aceitar ou concordar indiscriminadamente com as ações dos outros, sem pensar nas consequências que elas possam acarretar para nós ou para o mundo. Sentir compaixão envolve ser capaz de dizer não quando for necessário, sem excluir o outro do nosso coração, sem fazer do outro um ser humano inferior. Existe uma diferença entre opor-se a um comportamento nocivo e achar que existe algo fundamentalmente errado com a pessoa que tem esse comportamento - que ela é inferior a nós, que é uma parte menor da presença que é maior do que todos nós.

Tanto  Sam  quanto  Isabel  eram  pessoas  desconhecidas.  Embora nosso   breve   encontro   tenha   desafiado   minha   capacidade   de   sentir compaixão, eu não tinha uma ligação especial com nenhum dos dois.

O coração aberto para alguém muito próximo que nos tenha ferido profundamente com suas ações é mais difícil. Quanto mais amamos, mais profunda é a ferida e mais difícil fica deixar de achar que o outro está errado. Existem  maneiras  veladas  de  retirar  uma  pessoa  do  nosso  coração: contamos aos amigos, especialmente aos conhecidos comuns, como fomos tratados  injustamente,  negando  ou  omitindo  qualquer  responsabilidade nossa na história. Ou sentimos prazer quando ouvimos falar nos pequenos - ou mesmo grandes - insucessos da outra pessoa.

Não estou sugerindo que devemos fingir ser mais magnânimos do que realmente somos. Uma amiga abandonada recentemente pelo parceiro me disse uma semana depois do rompimento: "Eu realmente desejo o melhor para ele". Eu reagi: "Papo furado. E cedo demais. Você não quer o bem dele. Neste momento você espera que ele esteja sofrendo, sentado sozinho em casa, sentindo-se arrasado porque acaba de se dar conta de que perdeu a melhor mulher que poderia esperar ter na vida".

Ela riu. "Bem, acho que isso é verdade. Mas eu quero desejar o melhor para ele — um dia". Ri com ela: "E provavelmente você vai desejar. Mas, no momento, aceite que você está ferida e com raiva. Conviva com esses sentimentos e com a maneira como tudo aconteceu — qual foi o seu papel, qual o dele, de que forma vocês magoaram um ao outro e, às vezes, a si mesmos".

Recentemente, deixei de tomar essa mesma atitude com minha amiga Sharon. Os detalhes não são importantes. Eu sabia que precisava me afastar do relacionamento com ela, mas não tinha consciência do quanto eu ainda estava sentida com uma coisa que Sharon fizera. Quando não temos consciência do que estamos sentindo — apesar de isso talvez parecer estranho numa pessoa com mais de quarenta anos —, pode ser perigoso. Não foi tanto o que eu disse para Sharon. Na verdade, minhas palavras descreveram com a maior precisão qual tinha sido o comportamento dela que exigia que eu me afastasse. Mas o tom de uma das frases que saíram da minha boca teve a intenção de magoar o espírito da minha amiga, dando a entender que ela não era aceitável, que tinha algo fundamentalmente errado com ela.

Vou dizer uma coisa que vocês provavelmente já sabem: quanto mais eu tenho consciência de que a compaixão é minha natureza essencial, mais eu  sofro quando minha dor  me  faz  esquecer essa natureza e  eu  ataco violentamente outra pessoa, sugerindo que ela está errada, como fiz com Sharon. É isso que significa ficarmos profundamente deprimidos: agir de uma forma contrária à nossa natureza. E não há como voltar atrás, não existe qualquer maneira de garantir à outra pessoa que você não a retirou do seu  coração,  porque  você  de  fato  fez  isso,  mesmo  que apenas por  um momento.

O padre católico Henri Nouwen escreveu o seguinte: "Perdão é o nome do amor praticado entre pessoas que amam de forma sofrível. E a dura verdade é que todos nós amamos de um modo sofrível. Precisamos perdoar e ser perdoados a cada dia, a cada hora — incessantemente. Este é o grande trabalho do amor na comunidade dos fracos que compõem a família humana".

Devido à minha condição humana, eu me esqueço de que o que sou é suficiente, especialmente quando estou ferida ou com medo de não ser amada. Imersa na dor e no medo, que fazem parte desse esquecimento, às vezes magôo outra pessoa. No entanto, até mesmo essa deficiência, pela qual sou responsável, me diz para não mudar, para continuar a ser quem eu sou, para   permanecer  dentro   do   meu   coração   congenitamente  capaz   de compaixão. E aprendo que é possível expandir o nosso ser e, ao expandi-lo, nos tornarmos capazes de ter mais compaixão, mesmo em situações em que isso nos parecia impossível.

Foi o homem que me estuprou quando eu tinha vinte e dois anos que me deu a oportunidade de aprender isso. Vou dizer a verdade. Eu nem mesmo me esforço para colocar esse homem no meu coração. Quando penso nele — e ainda penso, tantos anos depois, quando ouço a história de outra mulher que tenha sido estuprada — eu simplesmente vejo, quando medito, esse homem e eu dentro do coração daquilo que é maior do que eu e ao mesmo tempo parte de mim. Respiro algumas vezes e deixo o coração maior que sempre me abraçou, que está corporificado na minha essência, envolver minha dor e minha raiva. E, quando faço isso, tenho um vislumbre do sofrimento — da angústia — que deve existir dentro do ser humano que estuprou outro. Ao reconhecer esse fato, não posso deixar de pensar que esse homem foi em algum momento, tal como meus filhos, filho de uma mulher com esperanças e receios. E não se torna tão impossível, como certa vez eu achei que seria, rezar e chorar, não apenas por mim, mas também por ele.

Embora existam importantes diferenças no grau da ofensa cometida contra outra pessoa, não estou certa de que existam diferenças no tipo de ofensa. E isso que faz com que seja tão importante desenvolver a capacidade de encerrar a nós mesmos e as outras pessoas em nosso coração quando cometemos ofensas relativamente pequenas tanto contra nós quanto contra os outros. Que esperança posso ter de não fechar o coração ao homem que me estuprou, ou a mim mesma, quando magôo alguém que eu amo, se não consigo resistir ao impulso de achar que o desconhecido que me irritou com a câmera e sua necessidade desesperada estão errados?

Aleksandr Soljenitzyn escreveu as seguintes palavras depois de sofrer os horrores de um campo de concentração na Sibéria: "Se ao menos tudo fosse tão simples! Se ao menos houvesse pessoas más em algum lugar cometendo insidiosamente más ações e fosse apenas necessário separá-las do restante de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal atravessa o coração de todo ser humano, e quem está disposto a destruir um pedaço do próprio coração?".

MEDITAÇÃO SOBRE O CULTIVO DA COMPAIXÃO

É importante começar esta meditação com algo pequeno — uma pequena desfeita que tenha aborrecido você ou uma irritação passageira que tenha despertado seu mau humor mas que não chegou a causar uma dor profunda. Mais tarde, talvez você queira fazer essa meditação para ofensas mais graves cometidas contra outras pessoas ou o eu, mas é uma boa idéia começar com coisas relativamente sem importância.

Sente-se de uma maneira confortável e concentre-se na sua respiração.  Respire  profundamente  três  vezes,  inspirando  pelo  nariz  e soltando o ar pela boca, deixando os ombros caírem e visualizando qualquer estresse ou tensão deixando o seu corpo. Acompanhe o ritmo da respiração durante alguns minutos.

Pense agora no que aconteceu nos três últimos dias. Deixe sua mente descobrir um momento em que alguém lhe causou um aborrecimento ou irritação, um incidente no qual sua reação interior foi repudiar a outra pessoa, considerando-a uma idiota. Pode ter sido um completo desconhecido - alguém que lhe tenha dado uma cortada no trânsito, que tenha ocupado sua vaga no estacionamento do local de trabalho ou que tenha lhe prestado um mau atendimento num restaurante ou numa loja. A vida está cheia de oportunidades  para  ficarmos  aborrecidos  uns  com  os  outros.  Pode  ser alguém que você conhece - o parceiro que deixou o banheiro todo molhado, um filho que comeu um pedaço da sobremesa do jantar que você ia oferecer à noite, um amigo que chegou muito atrasado a um encontro. Qualquer coisa, desde que não seja muito importante.

Concentre-se nesse incidente e na raiva ou aborrecimento que você sentiu. Tome consciência da sensação de retirar a outra pessoa do coração, mesmo  que  apenas por  um  momento.  Permita-se  repassar na  mente  o incidente e expandir interiormente a raiva contra a falta de consideração da outra pessoa.

Agora, decida o seguinte: você quer descobrir uma maneira de sentir compaixão por essa pessoa na situação que lhe causou aborrecimento? Você se propõe a enxergar um outro você no comportamento dela?

Se a resposta for positiva, comece a encarar a situação a partir do ponto de vista dessa outra pessoa. Você pode ter pouca ou nenhuma informação a respeito da razão que a levou a comportar-se daquela maneira. Use a imaginação. Pense na essência do que ela fez: foi uma coisa negligente, egoísta, inconsequente e indelicada? Pense em como você às vezes — possivelmente em circunstâncias muito diferentes — se comporta de uma maneira  inconsequente,  negligente  ou  deixa  de  ter  consideração  pelos outros. Talvez isso aconteça quando você sente cansaço, está sob pressão, sente raiva ou se assusta. Trabalhe com as várias possibilidades até conseguir se ver no comportamento da pessoa que lhe causou aborrecimento ou irritação. Quando conseguir isso, imagine-se colocando você e essa outra pessoa  no  seu  coração  quando  sentir  cansaço,  ficar  com  raiva  ou  se assustar. Lembre-se de que não você precisa perdoar o comportamento dela, mas simplesmente colocá-la junto com você no coração quando ela ou você estiverem enfrentando esse desafio particular da condição humana.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Uma Mandala Para Cada Signo

Ciclos Menstruais e Ciclos Lunares

Exercícios – Respiração, Relaxamento e Concentração